
Ouça este conteúdo
Quando o cronista precisa começar o texto avisando que não é mentira, é porque algo já se perdeu. No entanto, aqui vai: não é mentira. Em Pernambuco, mais especificamente em Jaboatão dos Guararapes, uma mulher descobriu que foi presidente do Brasil. Ou pelo menos que esteve registrada como tal na Carteira de Trabalho. E não desde ontem ou anteontem, não. Ela, que se chama Aldenize Ferreira da Silva, foi presidente do Brasil por nada menos do que 24 anos e 2 meses.
Comunidade do Polzonoff: acesse e receba conteúdos exclusivos pelo WhatsApp.
Um erro burocrático, claro, nos zilhões de códigos que são os pilares da burocracia. Ainda assim, um erro curioso, do tipo que antigamente talvez até rendesse capa da revista “O Cruzeiro”. Com direito a texto de David Nasser e fotos de Jean Manzon mostrando Aldenize paramentada com a faixa presidencial. Mas que hoje se perdeu em meio ao noticiário escandaloso e suas manchetes histéricas. O governo isso, a oposição aquilo. Um noticiário cujo clamor às vezes parece silenciar a própria vida. Tá, nessa parte aí exagerei. Mas que é verdade é.
Sua Excelência
O que me chamou a atenção na notícia de que a dona Aldenize descobriu que estava registrada como presidente da República há 24 anos não foi nem o fato em si, e sim a reação da técnica em enfermagem. É que, em vez de aproveitar e rir e chegar em casa dizendo à família: “Cada uma que me acontece. Vocês não vão acreditar”. Ou então usar a Carteira de Trabalho para bancar a presidente no trato com o marido ou na hora de pagar a compra no mercado, Aldenize preferiu se revoltar.
É, se revoltar. Olha só o que ela disse à reportagem do G1: “Me senti constrangida, me senti como se eu fosse um palhaço fazendo graça pra um público”. E tudo bem. Direito dela, mas um triste sinal dos tempos. Da nossa incapacidade de admirarmos o banal e o inusitado, por um lado. E, por outro, da nossa incapacidade de tratarmos com leveza os pequenos incidentes da vida. Poxa, dona Aldenize! Deixe disso e aproveite. No mínimo, para exigir que todos se refiram à senhora por “Sua Excelência”. Ou para pedir aposentadoria com salário integral e todas as regalias a que ex-presidentes da República têm direito.








