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Ana Elisa. A moça de apenas 21 anos teve mais de 500 mil votos. E logo foi convocada para a guerra política, ideológica e eleitoral nas redes sociais. Vi. Tive que ver, mas não acreditei no que vi. Vi de novo. E de novo. Não é possível que mais de 500 mil pessoas tenham votado na moça que, com todo o respeito, tem sérios problemas de formação. Mas votaram e não é só isso. A moça, incapaz de uma ideia original e soterrada por clichês daqueles bem clichezentos mesmo, é vista como uma promessa da política. Estamos ferrados.
Raiva, porém, não consigo sentir. Até queria, porque a raiva é catártica. Mas pesquiso um tiquinho, imagino outro tanto, e tenho diante de mim uma Ana Elisa que vai além da personagem caricata desta eleição. Descubro uma moça que é produto deste século. Ressentida porque a ensinaram a ser ressentida. Doutrinada por mestres que a convenceram de que ela é “especial”. Não é. Tomada por um auto-ódio evidente e evidentemente triste. Crédula de que será capaz de consertar o mundo e moldá-lo de acordo com critérios muito pessoais do que é o certo. O que é bem perigoso.
Pena
Vinte e um anos. Aos 21 anos, minha maior preocupação era conquistar o coração das moças. E ter minha pretensa (e falsíssima) genialidade precocemente reconhecida. Aí gosto de imaginar. O que teria acontecido se, em 1998, Fernando Henrique Cardoso tivesse convocado aquele moleque magro, espinhento e orelhudo para ajudar na campanha à reeleição? Que bobagens eu teria dito com a mesma arrogância de Ana Elisa? Com o mesmo olhar fixo de quem acha que tem todas as respostas para todos os problemas do mundo?
Daí a pena que expresso com cuidado, muito cuidado, para não soar superior. Porque não sou. Pena por ver Ana Elisa, de um lado, sendo instrumentalizada pelos macacos-velhos inescrupulosos do PT. Seduzida pela mentira da autoimportância. E, de outro, sendo trucidada na guerra política. Espero, realmente espero, que a moça aprenda e amadureça com isso tudo. O que me parece até natural. Que ela perca o ar exageradamente circunspecto com que fala as coisas mais estúpidas do mundo. E, com sorte, que Ana Elisa aprenda a rir. Inclusive de si mesma.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



