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Se Anitta lesse Cecília Meireles

ANITTA CECÍLIA MEIRELES
Anitta lendo Cecília Meireles. (Foto: ChatGPT)

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No domingo, acordei com vontade de ler poesia. É raro, mas acontece. Da estante tirei a “Antologia Poética” de Cecília Meireles. Fui para a rede. Li o primeiro poema. Soltei um palavrão. E me deixei levar por umas reflexões melancólicas que compartilho com um ou outro que ainda se interesse pelo assunto.

1. Ninguém mais lê poesia, a não ser para ostentar uma cultura vazia e vulgar. E ainda assim são raros esses palhaços de fraque, saudosistas de uma época em que talvez fossem considerados inteligentes, mas não sábios. Jamais sábios.

2. O cenário (na prosa também) é desolador. Porque ninguém mais consegue atravessar um texto sem extrair dele um sentido muito claro que resultará em aprendizado. Lê-se para pôr no currículo. Em troca de um certificado. Tendo em mente alguma utilidade muito clara para aquilo.

3. (Ninguém mais entende uma generalização hiperbólica: ninguém).

4. Lê-se para concordar ou discordar. Para reagir. Uns de dedo em riste, outros fazendo mesura. Lê-se para mudar o mundo, não para contemplá-lo. Ora, contemplá-lo! Quem tem tempo de contemplar esse céu de um azul que só a poesia seria capaz de exprimir? É a economia da atenção, dizem. A vida urge, dizem. Ah, dizem tanta coisa...

5. O materialismo explica esse fenômeno da extinção da poesia, que é também a extinção da música e das artes plásticas. Sendo bem didático: arte é feita e consumida hoje para ganhar dinheiro. Não sei como. De algum jeito. Logo, está mais para publicidade do que para arte. Mas que preguiça de começar essa discussão...

6. Por falar em preguiça, ela e o medo, sobretudo o medo, também explicam. Medo de não entender um verso, meu Deus, o que eu vou fazer se eu não entender um verso? E se minha imaginação não alcançar certa imagem? Se me escapar tal e tal referência?

7. Relaxa. Poema nenhum existe para denunciar sua ignorância, a não ser esta: a de se achar capaz de compreender o sentido de tudo. Tanto nas linhas quanto nas entrelinhas. Nas notas e nas tintas. Tampouco o bom poema quer convencê-lo. Na verdade, o que parece escapar é o que fica: a ciência de uma escassez: a da beleza.

8. Neste ponto das minhas reflexões melancólicas é que apareceu a Anitta. Eu balancei a cabeça, tentei espantá-la, minha mulher me perguntou se eu estava ficando louco e tive dúvidas. Anitta lendo Cecília Meireles. Imaginou aí também?

9. Será que ela teria uma epifania? Ou abriria o bocão hialurônico num bocejo que, mais do que de tédio, é de orgulho? Não! Acho que ela, num primeiro momento, riria. Depois, trataria de consolar a ignorância. Na melhor das hipóteses, contrataria algum dos palhaços descritos no segundo parágrafo para lhe explicar o que deveria permanecer deliciosamente inexplicável.

10. E se você lesse? Sim, se o Lula, a Janja e a ministra da Cultura também. Se o Jair Bolsonaro e os filhos idem. Se o Nikolas Ferreira e a Tabata Amaral. Se o Allan dos Santos e o Silas Malafaia. Se o Alexandre de Moraes, claro! Mas e se você lesse Cecília Meireles?

11. É, você! Não adianta olhar para o lado, não. Você. Ei, ei, volta cá para o texto.

12. E pensei mais. Pensei que estamos divididos entre a ignorância presunçosa de quem rejeita a poesia como coisa de fresco e a frescura de quem rejeita a vida se encastelando no intelectualismo. Na inteligência regrada pelas normas da ABNT. Não há mais quem leia poesia assim, num domingo de sol. Na rede. Sem outro compromisso que não...

13. Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo

14. Ler por ler, digo. Para se sentir pequeno, minúsculo, infinitesimal diante da beleza. Para refletir sobre as grandes questões da vida. Aquelas que não se discute no jornal. Para fechar os olhos e sentir a brisa no rosto. E ouvir o próprio coração. E agradecer por isto que hoje é vida, mas talvez amanhã não seja. Isto. Agora. Ponto final.

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