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Será que a manutenção e incremento do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil, é uma confissão de toda a sociedade de que institucionalizamos a compra de votos?!
Será que a manutenção e incremento do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil, é uma confissão de toda a sociedade de que institucionalizamos a compra de votos?!| Foto: Reprodução

Ao leitor que quiser saber qual a minha opinião sobre programas assistenciais como o Auxílio Brasil (ex-Bolsa Família), vou ficar devendo. O assunto é complicado para mim. Nos dias em que acordo mais solidário e de ligeira boa-vontade com o Estado, tendo a ver com bons olhos os programas de transferência de renda. Meu lado racional, porém, às vezes se sobrepõe à “caridade com o chapéu alheio” e torço o nariz para esse tipo de iniciativa.

Curioso, isso. A mesma sociedade que defende a visão ultrarracional, científica, planejada, etc. é aquela que simplesmente não entende como alguém pode ser contra programas assistenciais como o Auxílio Brasil. Curioso, sim, mas não inexplicável. Neste caso, como em tantos outros, o espírito cristão da caridade é deturpado a fim de se incutir nas pessoas a ideia de que o Estado é capaz de criar uma sociedade de renda igualitária. Aquele blá blá blá todo.

Mas não quero entrar nessa seara. Porque não é o objetivo deste texto. A ideia, aqui, é pensarmos juntos no caráter eleitoreiro (ou não) desse tipo de ajuda aos mais pobres. À direita e à esquerda, analistas, especialistas e palpiteiros como eu sempre ressaltam a importância e a necessidade desse tipo de programa, com o adendo fatídico: ele, o programa assistencial, trará inegáveis dividendos políticos ao gestor que o propuser.

Vejo essa associação entre ajuda e voto feita assim, à toa, como se fosse fato dado. Como se fosse uma verdade incontestável que o pobre e o miserável, uma vez de barriga cheia, dará seu voto a quem encheu sua barriga. Me pergunto e estendo a pergunta aos senhores: será que essa relação de gratidão eleitoral é assim tão certa e automática? Pressupor tal coisa não significa tirar dos pobres e miseráveis que precisam de ajuda o pouco de autonomia e dignidade que lhes resta?

Pressuposto da venalidade

Não estou querendo, de jeito nenhum, tapar o sol com a peneira. Desde que me entendo por gente sempre soube que havia quem trocasse (ou prometesse trocar) o voto por uma dentadura, uma cadeira de rodas ou até mesmo uma camiseta. Há pessoas venais – daí o ditado cínico segundo o qual “todo mundo tem seu preço”.

Mas será que todos são assim – e a ponto de pressupormos que o Auxílio Brasil, grosso modo, representa uns 15 milhões de votos automáticos na conta do presidente Jair Bolsonaro? Tenho problemas com isso que chamo nada criativamente de “pressuposto da venalidade”. E o interessante é que esse tipo de raciocínio elitista, que vê os pobres e miseráveis como pessoas que trocam toda e qualquer convicção por dez vinténs, é usado justamente pela esquerda – historicamente a maior defensora de programas assistenciais/assistencialistas.

Diante disso, faço duas perguntas: a primeira num tom mais sóbrio e a segunda com um escândalo semicontido. Será que a esquerda está querendo confessar que vê os pobres como massa facilmente manobrável? Pior: será que a manutenção e incremento do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil, é uma confissão de toda a sociedade de que institucionalizamos a compra de votos?!

A mim o pressuposto da venalidade causa estranheza porque sugerir que todo mundo tem seu preço é o mesmo que a pessoa confessar que ela, também, tem um preço. E, bom, talvez eu viva numa bolha muito restrita e toda arrumadinha e perfumada, mas o fato é que estou cercado por pessoas que dizem não vender suas convicções por nada. Não tenho nenhum motivo para duvidar delas. Por que, então, haveria de supor que a imensa maioria dos pobres e miseráveis brasileiros, pessoas que, ao menos em teoria, precisam desse dinheiro para sobreviver, se venderiam a qualquer gestor que prometesse manter ou incrementar o programa social, tenha ele o nome que tiver?

Me incomoda profundamente esse olhar sobre os pobres como se eles fossem pessoas desprovidas de princípios. Um olhar, aliás, que vai na direção oposta aos preceitos daquela velha esquerda “romântica”, que via no operário pobre e com a cara suja de fuligem um representante basilar de uma moralidade inflexível.

Ou talvez – talvez! – décadas e décadas de programas sociais de toda sorte tenham realmente distorcido a moralidade pública. A tal ponto que, sem que tenhamos percebido, hoje os homens já nascem com um preço estampado na testa. Será? Será? Não! Me recuso a acreditar que um Diógenes contemporâneo, de lanterna acesa em plena luz do dia, atualmente ande pelos rincões mais miseráveis do Brasil à procura de homens íntegros.

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