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Como não sou bom de obituários, acabei achando melhor não escrever nada sobre a morte de Dalton Trevisan. É, é, eu sei que já faz bastante tempo. Dalton Trevisan de quem tenho memórias contraditórias. Ídolo da juventude, Dalton foi uma decepção quando se tornou um ser humano diante de mim no saudoso Café Exprèx, ali na praça Santos Andrade. É que eu fui esperando encontrar um gênio e me deparei com um velho meio tosco, dado a piadas bobas e comentários maçantes sobre assuntos desinteressantes. Assim como sou hoje.
Depois disso, para mim Dalton Trevisan virou um nada. Ou melhor, um monte de estilo sem nenhum conteúdo. Uma decepção. Uma tristeza. E também uma lembrança que eu evocava com um ar ligeiramente blasé. Minto, muito blasé. Afinal, ter tomado café com Dalton Trevisan era um sinal de status – e eu sabia disso. Por fim, Dalton Trevisan ficou reduzido a ídolo de uma galerinha muito estranha, do tipo que usa camiseta com #críticasocialfoda de escritor. E assim morreu para mim antes de ter morrido para o mundo, coitado.
Há uns dois anos, reli sua coletânea de contos mais famosa, “O Vampiro de Curitiba”. E o que senti foi que Danton Trevisan se achava melhor do que aqueles homens e mulheres pequenos que retratava em suas histórias banais. Sinceramente, minha impressão foi a de que Dalton odiava o ser humano e que não via em seu semelhante absolutamente nenhuma virtude. Só a submissão a seus instintos mais baixos. Sem falar o ateísmo agressivo e vulgar que em outros escritores não me incomodava, mas em Dalton Trevisan sim. Não sei por quê.
Dalton Trevisan, saudoso Dalton Trevisan. Ele cujo nome foi evocado dia desses, entre goles, lambari e risadas, quando contei a amigos que, lááááá atrás, num passado muito distante (coisa de duas décadas) e num outro jornal, escrevi uma série de crônicas sobre a morte do escritor avesso à exposição e homenagens. Aliás, ando precisando ir à Biblioteca Pública ver se encontro essas e outras bobagens da época em que eu era um enfant terrible daqueles bem terribles mesmo. Terriblelmente chato.
Os textos brincavam com a vaidade disfarçada de ultramodéstia – uma das maiores marcas de Dalton Trevisan, além das elipses. E o transformavam em nome de rua, de avenida, de praça, de parque, de posto de saúde e, claro, de biblioteca e escola. Se me lembro bem, mas não me lembro, os textos tentavam expor ao ridículo o excesso de controle sobre a própria biografia. Como se tivéssemos algum controle sobre o que farão com nosso nome depois da morte. Era algo nesse sentido.
Na hora, um amigo já calibrado pelo suco de cevada se levantou e, teatralmente, propôs um brinde ao Dalton Trevisan. Brindamos. E pedimos mais uma cerveja. Depois, ele anunciou com toda a pompa e gala de um poeta parnasiano que, na segunda-feira, primeira coisa do dia (“eu juro!”), iria à Câmara Municipal pedir que algum vereador encampasse essa ideia que esse meu amigo, naquele momento, e só naquele momento, considerou genial: dar a algum logradouro da cidade o nome “Dalton Trevisan”.
— Só não pode ser pra um daqueles vereadores novinhos de direita — disse. Eu disse. — Primeiro que eles não sabem quem foi o Dalton. Ou, se sabem, acham que foi só um escritor esquerdista desprezível — disse. Eu disse. Ah, quer saber? Disse mesmo.
— E não foi? — perguntou alguém.
— Claro que não!
— Só tem um jeito de conseguir isso! — anunciou o amigo. Aquele que já falava inspirado por uns vapores etílicos.
E ficou um silêncio na mesa.
— Lembrei! — disse ele depois de muitos segundos. — Só tem um jeito de conseguir isso: convencer os vereadores novinhos de direita, como você diz, a mudar o nome da Avenida Getúlio Vargas, um ditador, para Avenida Dalton Trevisan.
Concordamos todos. A ideia, apesar do bafo de onça, era boa mesmo. Ou será que a intelligentsia curitibana se oporia a trocar o nome de um fascista pelo do seu literato preferido, só porque a proposta foi feita por um vereador novinho de direita, desses que, evidentemente, nunca leram Dalton Trevisan e ainda se orgulham disso? São questões. Na verdade, só uma questão.
Mas, como costuma acontecer nas mesas de bar, quando a unanimidade é atingida o assunto morre. É como se tivéssemos resolvido ao menos um problema importantíssimo do mundo. Uma vez curada a ressaca, porém, meu amigo evidentemente não foi à Câmara. De qualquer modo, fica a dica, na remota hipótese de algum vereador novinho de direita estar me lendo.
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