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“Curioso...”, estava aqui pensando sobre a comoção em torno da morte (assassinato?) do cachorro Orelha. Quando o comunista Graciliano Ramos matou a cachorra Baleia, ninguém reclamou.
— O que é que tem a ver?! Esse cara aí endoidou de vez.
Método na loucura
Não tem nada a ver uma coisa com a outra, eu sei. Mas pensei mesmo assim. Porque o pensamento de quem cria é desse jeito. Um tanto quanto aleatório, embora até Shakespeare soubesse que há método nesta e em outras loucuras.
E, em pensando, deixei os pensamentos fluírem. Tão bom e tão confuso preciso de outro sinônimo para aleatório tô com fome Catota linda por que Orelha? lembranças espinhas na cara livro Graciliano Biblioteca Pública vestibular comunista cena triste — e é por isso que tem uns escritores que não usam pontuação. Entende agora o tal fluxo de consciência?
Pulei mesmo
Esse Graciliano, sim, era comunista. E dos bons! Ateuzão declarado. Foi preso. Escreveu suas memórias. Naquela época não tinha Rouanet. Era um gênio, mas um chato de galochas em pleno agreste de Alagoas. E foi o autor do assassinato de cachorro mais famoso da literatura brasileira, mas não sei se tem outros.
Me refiro, claro, à famosa morte da cachorra Baleia. Que eu só sei que morreu assim, de orelhada, de ouvir falar, porque quando li “Vidas Secas”, há bons trinta anos, senão um pouco mais, e sabendo que em algum momento isso aconteceria, simplesmente pulei a parte em que o Graciliano sacrifica o bichinho.
Pulei mesmo. Não me envergonho. Por acaso sou masoquista para ficar lendo a descrição da morte de uma cachorra? Ainda mais naquele estilo seco e ogro do Graciliano. Ainda mais escrito por um comunista!
Como assim?!
Brincadeira, claro. Leia Graciliano, leia “Vidas Secas” e principalmente “Angústia”, leia outros escritores, sejam eles comunistas ou não, viva a literatura naiconal!, etc.
O que quero dizer com essas digressões aparentemente aleatórias é que me falta a capacidade de compreender o que leva alguém a matar um animal indefeso. E a pauladas, ainda por cima. Fico perdidaço. Simplesmente não consigo imaginar. E olha que já tentei. Juro que tentei. Mas em algum momento meu olhar sempre encontra o olhar 1/3 tristão 1/3 pidão 1/3 maloqueiro do Orelha e eu fico tipo “como assim?!”.
Que sabemos nós?
Sofro pelo animal. Genuinamente. Mas sofro também pelos seres humanos. Não pelos adolescentes que cometeram essa barbaridade. Ou melhor, também por eles, vai. Por que não? Afinal, como esses adolescentes conviverão com a atrocidade que cometeram? Não sei e quem disser que sabe está mentindo. Haja Rivotril!
Mas sofro sobretudo pelos pais. E eu sei que você está aí, provavelmente dizendo que a culpa é dos pais permissivos, que mimaram esses moleques e não lhes deram educação e tal.
Ora, mas que sei eu da criação dos quatro monstrinhos? Que sabe você do que se passa na cabeça deles e dos pais e dos parentes e dos amigos neste momento. Que sabemos nós do que passou na cabeça deles quando mataram o pobre do cãozinho?
Parêntesis para levar bronca da mulher
Confesso que não sei nada disso tudo que, sim, pode até ser humano e é, mas nesse caso me é estranho. Muito estranho.
Convém abrir um parêntesis para dizer que minha mulher está aqui ao lado, espumando de raiva, no sentido hidrófobo da palavra, dizendo que “estou defendendo quem matou o cachorro” (não estou!), que os pais têm culpa no cartório, sim, que os assassinos não são “monstrinhos” e sim uns &#%$@&!%$! (tá revoltada) e que ela até entende fazer uma coisa dessas com seres humanos, mas não com um cãozinho que não tem culpa de nada, tadinho.
No que discordo ligeiramente, porque não entendo fazer uma coisa dessas nem com meu maior inimigo. Mas não sou nem louco de dizer, amor. Pronto, pronto. Passou, passou. Fecha parêntesis.
Se o Orelha fosse um pit bull
Sei, contudo, que essa coisa de usar o caso do Orelha para falar em redução da idade penal tem nome: oportunismo. Não que o mérito não seja debatível. Claro que é! Afinal, tem galalau de 16 anos tocando o terror por aí.
Mas falar isso agora, quando estamos todos comovidos com a morte do vira-lata e quando dá um ruim só de pensar? Se liga, Flávio! Se liga, Nikolas! Vocês são melhores do que isso. (Acho).
Sem falar na histeria coletiva em torno do caso. No domingo (1), teve até passeata! Aí, sinceramente, já acho um pouco demais e aproveito para perguntar aos ativistas: se os adolescentes que mataram o cachorro não fossem de classe média, e sim “vítimas da sociedade”, haveria tamanha comoção? O caso continuaria sendo revoltante, mas as pessoas sairiam às ruas em passeata? E se o Orelha não fosse um vira-lata comunitário, e sim o pit bull de um bolsonarista? Ou do próprio Bolsonaro, por que não? E que tal se o assassinato tivesse ocorrido em Palmeira dos Índios, e não em Florianópolis? Hein?!
Bom, enquanto você pensa aí eu vou lá na estante pegar meu exemplar de “As Bruxas de Salém”. Boa hora para reler.
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