
Ouça este conteúdo
Se fiquei chateado com a leitura transversal e azeda que alguns fizeram do texto em que traçava um paralelo entre a Coluna Prestes e a caminhada promovida pelo deputado Nikolas Ferreira? Um pouco. Nah. Bastante. Mas o negócio é me acostumar, eu sei. Ou então mudar. O que já não sei se consigo. Porque, apesar de um ou outro mal-entendido, há algo de profundamente espiritual em tudo o que escrevo. Busco a verdade e não sei se estou disposto a abdicar disso. Minto. Sei que não estou.
O fato é que observei todos os dias da caminhada liderada por Nikolas Ferreira e que percorreu 240km, entre Paracatu (MG) e Brasília. Desde os primeiros passos expostos nas redes sociais, passando pela adesão cada vez maior de populares e personalidades da direita, até o fatídico raio que atingiu os manifestantes concentrados na capital federal. Um acontecimento, aliás, perturbador em vários níveis. Talvez eu volte a esse assunto num outro texto.
Carne, osso e alma
Mas vai ter que ficar para um texto futuro mesmo, porque neste quero falar de algumas lições que a direita pode e talvez até deva (mas não vai) aprender com a caminhada liderada por Nikolas Ferreira, doravante chamada apenas de Caminhada do Nikolas. E a primeira dela é esta: política se faz com gente. No meio de gente. No mundo real. Nada substitui o contato com o outro. Aquele ser de carne, osso e alma, principalmente alma, e que chamamos de “nosso semelhante”.
Digo isso porque tenho a impressão de que muita gente se entusiasmou com o papel das redes sociais nas eleições de 2018 e substituiu a percepção do mundo real pelo que vê no Instagram. Ou pior, no Twitter. Sem dizer que é muito mais cômodo e fácil, quando não prazeroso, ficar brigando com @seilaquem ou com aquele sujeito que, lá do outro lado do mundo, vive de criar intrigas. Mas é um erro. Porque se tem uma coisa que aprendi é que, apesar da promessa de proximidade e pertencimento, as redes sociais só afastam as pessoas e distorcem a realidade.
Oportunistas
Não quero, porém, que você ache que estou dando lição de moral aqui. Não é meu objetivo. Quem sou eu? Só acho que os fatos estão aí para a gente aprender alguma coisa com eles. E também para a gente conversar. Lembrando que propor uma conversa sempre animada é a minha missão de vida. De vida! E eis aqui uma lição dura (mas necessária) de aprender com a caminhada do Nikolas: é na política que os oportunistas se realizam.
Não adianta. É da natureza do negócio. Por isso, não há nem por que se revoltar. A despeito de um ou outro abnegado, quiçá até vocacionado para o bem comum, a política só atrai gente interessada em poder. Em influência. Em moldar o mundo conforme sua vontade. Sem falar no dinheiro, mas realmente acho que o dinheiro é secundário. Oportunistas gostam de coisas como “estar participando de um ato histórico”. Da aparência, só aparência, de estar contribuindo. Os oportunistas (e nem todos são!) que se juntaram a Nikolas na caminhada são um clássico.
Chuva, bolhas, câimbras
Outra lição importante. Talvez a mais importante. Tão importante que, pensando bem, eu deveria ter começado o texto com ela. Mas agora já era: o cidadão comum gostamos de ver político se sacrificando. Tomando chuva. Com bolhas nos pés. Andando com dificuldade por causa das câimbras. Exposto ao escárnio dos petistas que certamente passavam pela estrada. Tomando o sol do meio-dia na cara. Gostamos. Nem que esse sacrifício seja simbólico.
Só não pode ser um sacrifício falso. Um golpe de marketing. E, sinceramente, não acho que a caminhada do Nikolas tenha sido isso. Espero que não. Aliás, a diferença na percepção do sacrifício político é o que explica a imagem de Jair Bolsonaro (“o homem que levou uma facada pelo Brasil”) da imagem do filho, Eduardo, em seu razoavelmente confortável autoexílio nos Estados Unidos. No fundo, é por meio dessa percepção que as pessoas, às vezes inconscientemente, decidem seu apoio e voto.
A vida é feita de escolhas
Outra lição (a penúltima) interessante que se pode tirar da caminhada do Nikolas é que a direita tem que ter a coragem de perder. De sair derrotada das urnas, sim, mas com a cabeça erguida. Temos que voltar a pensar na política como uma expressão da honra, por mais idealista que isso soe. Precisamos estar dispostos a fazer o certo, sem ter certeza do sucesso. Afinal, nem tudo tem que ter um ROI! Repare que a caminhada do Nikolas não resultou em nada de concreto, exatamente. (Até agora). Mas não dá para negar: ela reavivou alguma coisa boa em muita gente que andava borocoxô, muitas vezes dando ouvidos ao seu lado mais cínico.
Por fim, uma lição triste, daquelas que mostram que a direita insiste nos mesmos erros. É que, cá entre nós, e sem querer menosprezar a liderança do deputado Nikolas Ferreira, longe disso!... Mas quem deveria estar liderando a caminhada, unindo a direita e até atraindo os oportunistas era o pré-candidato Flávio Bolsonaro. Era ele quem deveria estar “atravessando o deserto”, se sacrificando simbólica e fisicamente. Mas Flávio Bolsonaro, por algum motivo, achou melhor rezar no Muro das Lamentações. E tudo bem. A vida é assim mesmo: feita de escolhas.




