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Então, Jesus, parando, mandou que lho trouxessem; e, chegando ele, perguntou-lhe, dizendo: Que queres que te faça? E ele disse: Senhor, que eu veja.
- Lucas 18: 40-41.
Estou na calçada, esperando o Uber. Chove uma garoa molha-tolos. Do outro lado da rua, vejo ele. O cego. Em seu passo hesitante e com sua bengalinha que parece um metrônomo. Teque pra cá, taque pra lá. Uns vêm e outros vão. Ensimesmados. Passam pelo cego que acompanho com curiosidade e admiração. Andar assim, às escuras e àquela hora. Naquela rua cheia de monstrengos biarticulados. É preciso uma coragem que nem imagino. Uma confiança que me é inalcançável. E lá vai ele. Devagar e sempre.
Um ônibus ensurdece a bengalinha e me tampa a visão. O Uber cancelou a corrida, mas já tem outro vindo na outra esquina. Afobado, louco para chegar em casa, atravesso a rua correndo. Quase esbarro no cego. O cego que tinha chegado até a esquina e lá estava. Parado. A bengalinha muda, a cabeça ligeiramente levantada. “Olhando” em volta. Nunca ajudei um cego a atravessar a rua. E se me oferecer e ele se ofender? Sei lá. Pode acontecer, ué. Mundo estranho. Arrisco. Me ofereço: posso te ajudar a atravessar a rua?
Domine, ut videam!
Ele diz que sim. Sí, sí, por favor. Noto o sotaque e concluo: venezuelano. Ele é um pouco mais alto do que eu. O que não é difícil. Usa um moletom cinza, desses com capuz. Os óculos escuros são de armação grossa e chamam a atenção no dia nublado. Por motivos óbvios, penso que ainda bem que ele está de óculos. Seguro-o pelo cotovelo, como aprendi nos filmes. Aviso de um buraco. A bengalinha teque. Calma, vamos deixar esse ônibus passar. A bengalinha taque. Agora aqui tem uma rampa – digo, já do outro lado da rua. Solto o cego, que segue adiante. Teque, taque, teque, taque. Estou sorrindo.
Sorrindo e me lembrando dos cegos que Jesus curou. Como deve ser ver o céu azul pela primeira vez? Com a segurança de quem sabe que será capaz de enxergar quando os abrir, fecho os olhos por um instante. Segundos. Imagino como seja caminhar nas trevas. E em meio ao barulho das 18 horas, ainda por cima! O cego que era leve como um anjo. Estou feliz. É pecado ficar feliz por ajudar um cego a atravessar a rua? Por escrever esta crônica? Por pensar que, apesar dos olhos saudáveis, às vezes também sou incapaz de enxergar? Estou feliz e essa felicidade não é normal, mas é boa. Deus te abençoe – foi a última coisa que me disse o cego. Amém, amém.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



