
Ouça este conteúdo
Num dia é nojo. Noutro, pena. Pena com retrogosto de ânsia de vômito, como quase tudo que vem do STF. Mas ainda assim pena. É o que estou sentindo hoje pelo ministro Dias Toffoli.
E pena é um negócio estranho de sentir. Principalmente por um ministro do STF e ainda mais por Dias Toffoli, o amigo do amigo do pai do Marcelo Odebrecht, cada dia mais enrolado no caso do Banco Master, parça do José Dirceu e símbolo supremo (ou seria master?) de algo que pode ser qualquer coisa, menos meritocracia. Muito menos vocação.
E, no entanto, é pena o que sinto de Dias Toffoli neste momento...
Tá com pena? Leva pra casa!
— Tá com pena? Leva pra casa!
Tá, tá. Mereço ouvir isso mesmo. Mas, como ia dizendo antes de ser interrompido, pena é um negócio estranho de sentir. Porque temos de descer do pedestal moral em que nos empoleiramos diariamente para julgar o mundo, temos de olhar nos olhos do alvo de nossa pena e, incômodo dos incômodos, temos de reconhecer que não somos assim tãããão diferentes dele.
Sentir pena dos outros é um pouco sentir pena de nós mesmos. Aí a coisa pode descambar ou para a humildade ou para a arrogância. Ao gosto e capacidade do freguês.
Sacrifício no altar do Sistema
E, no entanto, é pena, nada menos do que pena, o que sinto por Dias Toffoli neste momento em que ele está sendo sacrificado no altar do poder. Uma imagem girardiana que me ocorreu assim, do nada, e que me obriga a perguntar. A te perguntar: o sacrifício de Dias Toffoli aos deuses do Sistema apaziguará o país? Ou pelo menos o seu coração?
Em outras palavras, será que todo mundo vai ficar feliz com um eventual impeachment de Dias Toffoli? Você vai? Será que teremos esperança novamente, que o otimismo vai voltar, que voltaremos a cantar “Eu/ Sou brasileiro/ Com muito orgulho/ Com muito amor” e o Brasil vai ser Hexa? Aposto que não e dobro a aposta na possibilidade de que a revolta, a indignação, a raiva só aumentarão.
O que parece uma contradição e é mesmo. Mas isso é assunto para outra hora. Quero voltar a falar da pena. A pena que...
Quem tem pena é galinha!
— Quem tem pena é galinha!
*suspiro* A pena que esconde, e esconde mal, um prazerzinho sádico: o de ver o eterno estagiário, o advogado do PT e o pior ministro do STF de todos os tempos se fartar no banquete das consequências.
Mas pena é pena e não seria pena genuína se não nos permitisse também vislumbrar as misérias do outro, que também são minhas. São nossas.
Tipo agora quando, diante da revelação de que Dias Toffoli conversava às pampas com Daniel Vorcaro, o ministro resolveu se assumir. Mas não, não é nada disso que você está pensando. Mente poluída! Estou falando em se assumir como sócio do resort do Tayayá. Tem miséria maior do que essa de se achar inatingível? De se sentir no controle da própria desgraça?
Dá pena. Nada menos do que pena. Porque, com um pouquinho de cuidado e até carinho, nota-se em Toffoli alguém que, de tanto ver exaltada a esperteza, acabou desdenhando da inteligência.
Ou seja, por nada
Alguém que, por isso, agora terá de se deparar com aquela frase do Dostoiévski.
— Já sei! “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
— Que nada! Eu conheço o Polzo. É "a beleza salvará o mundo".
Não! É aquela outra, que diz: “E seu pior pecado é que você se destruiu e se traiu por nada”. Por um cargo no STF e o poder que isso representa, até não representar mais; por uma fatia na sociedade de um resort de luxo; por tudo o que há de mais mundano e nem gosto de imaginar.
Ou seja, por nada.
Aliás, essa é uma frase que todo mundo acha que se aplica a seus inimigos ou a figuras repugnantes como Dias Toffoli. Mas que, sinto ser eu lhe informar, se aplica a você também. A mim. A todos nós. Coitados de nós. De mim. Coitado do Toffoli.
VEJA TAMBÉM:
ENTRE PARA A MINHA COMUNIDADE NO WHATSAPP!




