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De uma vez por todas, e para nosso próprio bem, é preciso ignorar os pulhas que cobiçam aceitação e dar ouvidos aos santos que almejam a Salvação.
De uma vez por todas, e para nosso próprio bem, é preciso ignorar os pulhas que cobiçam aceitação e dar ouvidos aos santos que almejam a Salvação.| Foto: Reprodução/ Wikipedia

Ontem (15) eu estava dando os retoques finais no texto em que rebatia o que o YouTuber Felipe Neto disse ao jornal New York Times quando tocou o interfone. Àquela altura, eu já estava um tanto incomodado por ter proposto um debate sobre o discurso político de alguém seduzido pelas sereias ou com asas de cera de abelha – você escolhe o mito que achar mais adequado.

Deixei o computador de lado um pouquinho e fui até a portaria receber a encomenda. Esqueci a maldita máscara e o entregador me olhou desconfiado, como se minha cara exposta fosse uma falha de caráter. Fiz uma brincadeira sobre estar com sintomas precoces de Alzheimer, mas ele não riu. Recebi o embrulho e o abri ali mesmo no elevador.

O que li na contracapa tornou mais difícil minha tarefa de desbastar as arestas do texto sobre o YouTuber:

“É uma verdade historicamente demonstrada: - o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: - ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: - ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto”.

Com esse vocabulário saborosamente enfático de quem conviveu com escarradeiras, é como se Nelson Rodrigues me pegasse pelo colarinho e implorasse: deixe o louco, o “pulha indubitável” falar para as paredes, não, para a caixa de ressonância, e atente, ao menos de vez em quando, nem que seja só por hoje, para os santos. Para os homens de voz mansa e olhar perdido no horizonte de uma paz que nos parece inalcançável. Para esses gênios em andrajos aos quais não damos a esmola da nossa atenção porque estamos distraídos ou fascinados pelos pulhas indubitáveis que, do alto do caixote, se contorcem inteiros numa imitação constrangedora de foca.

Concluí o texto, mandei para o editor, publiquei. E saí procurando nas esquinas do meu apartamento pelo “santo” discreto e desprezado pela turba ruidosa. Encontrei-o perto da janela com vista para a Serra do Mar, a leste, e uma igrejinha bem distante ao norte. Era magro, tinha um olhar meio vidrado e usava um arquetípico sobretudo preto. Sem dizer nada, ele me entregou um papel. O que estava escrito eu reproduzo alguns parágrafos abaixo.

Antes, preciso compartilhar meu espanto e dizer que é incrível como o brasileiro tem sorte - e não se dá conta disso. Eu disse sorte? Bobagem minha. É a Graça. Basta ir a uma biblioteca, qualquer biblioteca, e encontrar lá um Machado de Assis. E acredito que não reste dúvida de que Machado de Assis seja produto de um milagre: um gênio periférico escrevendo aquelas frases absurdamente belas numa língua exótica. Que dizer de um Guimarães Rosa, então? Ou, fugindo um pouco da literatura, como explicar, senão pela Graça, a existência de um Tom Jobim?

A obra de todos esses homens, que no contexto desta crônica chamo de santos, está disponível a qualquer um. Fácil, fácil. Nas infinitas esquinas da Internet, bastam meia-dúzia de cliques para lhes dar voz. E, no entanto, por algum motivo que me escapa, cotidianamente optamos por ignorá-los, preferindo o ruído demoníaco dos falsos profetas cibernéticos, com suas promessas de Apocalipse, seus Anticristos e sua macabra atração pelo interminável conflito entre os homens de bem.

O santo a que me refiro aqui na realidade não tinha nada de santo. Mas isso não importa. O que importa é que, por obra da Graça, Bruno Tolentino escrevia (também) em português para quem tivesse a generosidade de ouvi-lo. Exceto por uma antológica entrevista nas páginas amarelas da revista Veja, Tolentino nunca teve um caixote muito exuberante para chamar de seu. A despeito da mitomania, ele cultivava a discrição dos sábios.

E foi assim, no silêncio das esquinas de um mundo muito real, muito palpável, que ele compôs os versos que aqui transcrevo, na esperança de que percebamos, de uma vez por todas, que é preciso ignorar os pulhas que cobiçam aceitação e dar ouvidos aos santos, que almejam a Salvação:

O Senhor prometera nos compensar os anos

que a legião dos gafanhotos devorara,

meu coração, mas a promessa era tão rara

que achei mais natural vê-Lo mudar de planos

que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos.

Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara

fecundar-me as cantigas, coração meu – repara

como crescem espigas entre escombros humanos…

Naturalmente, quem sou eu para que Deus

cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,

e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus,

fazendo-os ver que, no trigal em que se deita

a luz dourada e musical, se algo perdeu-se

foi como o grão – entre a seara e a colheita.

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