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Minha primeira experiência eleitoral foi traumática. Acho que foi em 1986, mas não tenho certeza. 1988? Só sei que eu era uma criança e, para uma criança, nada mais legal do que jogar santinhos do ônibus escolar em movimento. Os primeiros em forma de aviõezinhos, os outros nem tanto. Aquela chuva de papel nos colegas que iam ficando pelo caminho. Por acaso, a brincadeira também era campanha para o finado vereador Jair Cezar. No dia seguinte, fui chamado à sala da temida Irmã Clementina, também ela finada. Fui. Morrendo de medo de ser expulso ou suspenso, mas fui. Ela queria saber apenas se meus pais eram ligados ao candidato. Não eram.
Depois veio a eleição para o grêmio estudantil do Colégio Madalena Sofia. Não tinha a menor ideia do que era um grêmio estudantil. Até hoje não sei direito. As escolas ainda têm grêmios estudantis? As professoras incentivavam, falavam em consciência política e tal. Os olhinhos dos colegas brilhavam diante da possibilidade de aumentar o tempo do recreio. Fiz parte de uma chapa qualquer, que perdeu. Mas se tivesse ganhado não fazia diferença. O grêmio estudantil que, estou lembrando agora, não apitava em absolutamente nada. Assim, aprendi que a democracia é um faz-de-conta. Estou até hoje tentando me convencer de que não é.
Macaco Tião
Aí veio o voto para valer. O primeiro. Se não me falha a memória, foi em 1994. Já em urna eletrônica. Infelizmente. Antes disso, tinha acompanhado meus pais em eleições de papel e caneta. Queria ir lá, ver como era, mas meus pais não deixavam. Diziam que era proibido. Ora, mas se os pais das outras crianças deixavam...? Depois, fascinavam-me as cenas das montanhas de cédulas nas mesas de apuração. Separar, selecionar, contar. Invejava aqueles homens varando a noite em meio a pilhas e pilhas de papel. Nessas horas, sempre entrava um repórter ao vivo para falar dos votos nulos. Um absurdo! Os eleitores que abdicavam do voto para dar recadinhos nas cédulas. E também para xingar os políticos.
Meu primeiro voto foi no Fernando Henrique. Claro. Nunca votei no Lula e jamais votaria naquela época. Tá louco?! O FHC acabou com a inflação. Para governador, fui de Jaime Lerner. Simplesmente porque Curitiba era a melhor cidade do Universo. Na fila de votação, me lembro da vergonha de não saber como proceder. Eu era muito tímido naquela época, acredita? Mas votei. Cumpri, sem muita empolgação, meu dever cívico. Mas não da festa da democracia, que para mim significava participar daquelas apurações noite adentro. Cigarro na boca. Rindo dos que escreviam palavrões ou dos que votavam, sei lá, no Chacrinha. Ou na Xuxa. No Pedro de Lara que seja. Só porque em Curitiba não tínhamos um Macaco Tião.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



