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Querido diário. Querido? Querido uma ova! Diário de bosta. Seu fascista! Desculpe. Tô com raiva. É que o Meu Marido perdeu o primeiro turno das eleições. E, cá entre nós (fica só entre a gente senão o Haddad começa a chorar), ele vai perder o segundo turno também. Claro que sempre existe uma possibilidade de os nossos amigos no STF darem uma ajudazinha, mas, sei lá. Estou revoltada. Rodando a baiana aqui. Porque o brasileiro é um povo ingrato. A gente dá tudo pra eles. Bolsa Família, vale gás, SUS, show do Caetano. A gente acaba com as BETs e eles vão lá e preferem votar no filho do inominável do que votar no Meu Marido. Não entendo. País miserável. Povo burro.
E agora me resta passar os próximos dias arrumando as malas no Alvorada. Me lembrando dos doces dias do poder. Das viagens. Do Macron lá na Amazônia. E do cavalo Caramelo. Me lamentando porque ninguém nunca mais vai abrir a porta ou estender um tapete vermelho para mim. Voltarei a ser o que era. Será que vou me acostumar à vida de ex-primeira-dama? Pior: continuarei casada com Meu Marido. Sentindo aquele bafo de cachaça e ouvindo aquela voz que finjo, apenas finjo, tolerar. Tendo que suportar os filhos dele. Tendo de prestar atenção àquele papinho de que nunca antes na história deste país. Ah, diário, o que será de mim a partir de 2027?
A volta do nazibolsofascismo
E o que será do Brasil com a volta do nazibolsofascismo? Estou com medo. Tenho certeza de que eles acabarão com os direitos dos LGBTs e, pior!, voltarão a chamar comunidade de favela. Vão botar fogo em toda a Amazônia e exterminar os pobres e os negros. Ninguém vê isso? Eles vão obrigar todo mundo a trabalhar na escala 7x0, vão acabar com a Lei Rouanet e a universidade pública. O Brasil será transformado numa grande Urubici, com suásticas pintadas nos telhados das casas. Voltaremos à Idade Média. Ao tempo das cavernas, quando os homens puxavam as mulheres pelos cabelos. Que retrocesso! Vai ser horrível.
Será que os brasileiros não percebem? Digo, não são todos os brasileiros os ingratos. Só metade. Os do Sul. E também os do Sudeste. Ah, sim: tem ainda os do Centro-Oeste e do Norte. Os únicos que se salvam são os do Nordeste, principalmente os da Bahia, Maranhão e Piauí. Por que os outros estados não são mais parecidos com esses? Será que os sudestinos preferem mesmo trabalhar em vez de receber Bolsa Família? Não é possível! Será que eles curtem mesmo essa coisa de saneamento básico? Uma assessora me disse que eles querem liberdade. Foi demitida, claro! Liberdade pra quê? Não entendo. Fico por aqui. Tô mais calma. Obrigado por perguntar. Tchau.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



