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Domingo de Ramos é dia de lembrar. Primeiro daquele domingo, há [deixa eu fazer umas contas aqui] 36 anos. A missa foi do lado de fora da paróquia do Bairro Alto, que ficava três quarteirões ladeira acima da minha casa. Não sei por que fui àquela missa. Minha última em muito tempo.
Mas fui e, durante três décadas, a lembrança daquela missa manteve a chama da minha fé católica acesa. Acho que eram os ramos e, se não eram, talvez fosse a música que até hoje ecoa nos horários mais improváveis do dia: “Santo, santo, santo/ Senhor Deus do Universo/ O céu e a terra proclamam/ A vossa glória/ Hosana nas alturas/ Hosana”. E se cantada na melodia diferente da daquele dia, algo de mim protesta em silêncio.
Hosana! Hosana!
Nem só de afobadas lembranças cronísticas, porém, é feito o Domingo de Ramos. Como me explicou um padre numa homilia recente, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, no lombo de um simples burrinho e aos gritos de “Hosana! Hosana!”, serve para nos lembrar do quanto somos volúveis e instáveis. E incoerentes e contraditórios. E cruéis nessa nossa relação com Deus e com o próximo.
Porque muitos dos que gritavam “Hosana! Hosana!” no domingo eram os mesmos que, dias mais tarde, estariam pedindo a soltura de Barrabás e, depois, cuspindo em Jesus. Ora, e até hoje não somos assim com Deus e com nossos semelhantes? Somos. Se você olhar bem dentro do coração vai perceber que somos. Admiramos, amamos, celebramos num dia e rejeitamos, torturamos, ofendemos, crucificamos no outro. Somos uns lixões mesmo.
Aqueles olhões melancólicos
Daí porque me espanta esse desejo de conquistar as multidões. Como se a felicidade fosse uma eterna entrada triunfal em Jerusalém. Não no lombo um simples, manso e simpático burrinho que atravessa a multidão com aqueles olhões melancólicos. E sim do alto do deslumbrante cavalo branco das certezas que confirmam este nosso ar vulgarmente majestoso: monarcas que somos de nossos capengas reinos de orgulho.
Me espanta o quanto teimamos em não ouvir o alerta caridoso de Cristo. Nós que bradamos os ramos um dia para este e outro para aquele – ambos destinados ao suplício do nosso ódio irracional e, já disse, incoerente e contraditório. Nós que deveríamos nos contentar em ser o burro, suportando o peso do amor presente e da injustiça futura. Mas que não: insistimos em querer ser deuses.
Louco de pedra
Porque buscar o amor das multidões é loucura de quem acredita na sinceridade dos ramos ao vento. E, no entanto, olha eu aqui, louco de pedra, esperando também algum tipo de fidelidade ao frágil pacto que um escritor estabelece com o seu público: o de ele vai fazer um afago na alma alheia e, em troca, receberá um afago semelhante do público.
Não. Isso não existe. Não mais. Se havia um pacto do tipo, e talvez houvesse, ele se quebrou. A hosana de hoje é o crucifica-o de amanhã. Sempre. Ainda assim, há quem almeje o amor no atacado dessa mesma multidão que, mais dia, menos dia, vai julgar e condenar e torturar quem quer que lhe tenha feito um bem que não é o mesmo de Jesus, ninguém está sugerindo nada isso, mas que ainda assim é um bem.








