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Ainda faltam as convenções, os registros no TSE e tal, mas aos poucos o cenário vai se consolidando. Lula deve mesmo concorrer a um quarto mandato. Flávio Bolsonaro, para minha surpresa, se firma como candidato competitivo. No páreo estão ainda Ratinho Jr. (possivelmente), Aldo Rebelo e Renan Santos. Zema também? Talvez.
O fato é que, nos próximos meses, esses e outros nomes que não me ocorrem agora travarão uma batalha sangrenta. Eles jurarão de pés juntos e pastel de feira na mão que é pelo seu voto, mas não; é pelo seu coração mesmo. Pela sua alma. Aquela que, eles sabem e se aproveitam disso, está aí, mendigando esperança.
“Projeto de país”
Alguns dos candidatos eu até acho que podem trazer propostas concretas. O tal do “projeto de país”, aquele documento em PDF e gerado por IA, que ninguém lê e que serve apenas para forrar a consciência de quem precisa de uma desculpa intelectual para odiar o vizinho. Alguns se apresentarão como técnicos, líderes, guias na travessia do deserto ou generais de uma guerra crucial para a sobrevivência da Civilização Ocidental, filial Brasil.
Mas não se engane. Porque as armas dessa batalha aí não são as ideias reformistas, sejam elas de tendência progressista, conservadora ou reacionária. Não!
Moedor de alma
As armas dessa batalha aí, ou melhor, o combustível desse moedor de almas aí são vocês, digo, nós, os cidadãos. Digo, eleitores, o que é bem diferente. Nós, com nossos ressentimentos de estimação e nossa vocação para o linchamento virtuoso. Com nossa busca por aceitação, nossos desejos às vezes mesquinhos, tá, geralmente mesquinhos, e principalmente com essa nossa insaciável necessidade de estarmos certos. O que, vale lembrar, é só outra forma de nos sentirmos melhor do que os outros.
Por isso, nos próximos meses o que veremos será o espetáculo de uma insanidade socialmente aceita, a que damos o prosaico nome de “disputa política”. Ou “disputa eleitoral”, “eleição”, “pleito” e até “sufrágio”. Que, como já disse, mas vou repetir, parece uma disputa pelo futuro da nação, mas, na verdade e pedindo desde já perdão pela rima, é uma batalha pelo seu coração. Hoje e agora. Pela sua alma. Por todos aqueles valores e princípios que você aprendeu, ou dos quais já ouviu falar, mas dos quais agora você se dispõe a abrir mão só para fazer prevalecer a sua vontade. Isto é, para garantir a vitória do seu candidato. Que coisa, hein!
O bagúio é dôido
Pode apostar. Pais brigarão com os filhos. Amizades serão desfeitas. Meras discordâncias, coisas à toa, ganharão ares de traição, quando não de canalhice mesmo. Piada virará ofensa e ofensa virará piada. Reputações construídas lentamente, ao longo de anos, serão destruídas assim, ó, vapt vupt, com um tuíte ou meme ou corte ou react ou vídeo feito na IA.
O 5º Mandamento vai pras cucuias nessa disputa que eu já disse que é insana, por isso vou usar outra palavra. Nesse desvario sem lógica (claro que é sem lógica!), muito menos ambição de Eternidade. E, se você parar para pensar, tudo isso é para descobrir quem consegue quebrar com mais força o 1º Mandamento. O bagúio é dôido, mano.
Você não vê o que está em jogo?
Por fim, em novembro teremos o resultado dessa briga de foices no escuro. Metade do país se sentirá vitoriosa e pura, ah!, que delícia!, banhada na pureza. É a metade que vai esfregar suas certezas na cara da outra metade, a dos derrotados que se dirão incompreendidos, perseguidos e injustiçados.
E que no dia seguinte já estarão nas ruas e nas telas novamente, não para lamentar a derrota, repensar a estratégia, reconhecer erros ou corrigir o rumo, e sim para saborear a indignação. A indignação que se tornou tão ou mais prazerosa do que a vitória. Ou então estarão pregando algum tipo de revolução capaz de restaurar a ordem que nunca existiu, e que por isso não pode ser restaurada. Mas, ah, Paulo, não me venha com essa coisa de lógica. Você não vê o que está em jogo?
Passatempo conveniente
Vejo. Observo atentamente. E me espanto com as justificativas estapafúrdias que inventamos para nos eximirmos da culpa de estarmos apenas destruindo o outro. Tipo, “foi ele quem começou” ou “senão ele nos destrói primeiro”. Fico pasmo com nossa disposição para exaltarmos as qualidades do candidato vitorioso, quem quer que seja ele, a ponto de transformá-lo num deusinho-com-mandato. Em alguém cuja simples presença no noticiário é capaz de dar sentido à vida de quem só está perdido e talvez até entediado, e que encontrou no conflito político interminável um passatempo conveniente. Talvez até divertido. Uma novelinha de ódio, com direito a vilões de ocasião e heróis descartáveis.
Mas é a tal coisa. Vovó já dizia: mente vazia, oficina do diabo. Você sabe. Em ano eleitoral você faz força para esquecer, mas sabe. Assim como sabe, quero crer que saiba, que a alma, até mais do que a vida cá neste mundo, é um bem precioso demais para ser jogado fora assim, só para eleger, dar poder e idolatrar Lula, Flávio Bolsonaro, Ratinho Jr., Aldo Rebelo, Renan Santos ou Zema. Sabe, mas não custa lembrar.
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