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Talvez você e a própria autora pensem que esta crônica é uma refutação ao texto “Estados Unidos: o Brasil que deu certo”, publicado aqui na Gazeta do Povo. Não é. Digo, é também, simplesmente porque não dá para deixar de ser. Mas esta crônica é antes de mais nada um acerto de contas com o americanófilo deslumbrado e brasileiro viralatamente complexado que fui um dia. E que não sou mais. Porque graças a Deus hoje consigo enxergar as muitas qualidades deste Brasil que amo hoje e odeio amanhã, só para no dia seguinte me deparar com uma cena tipicamente brasileira – e amá-lo (ou mais provavelmente odiá-lo) de novo.
Também já achei que os Estados Unidos eram assim um semiparaíso. Um modelo a ser estudado e repetido. Ah, a liberdade econômica! Ah, o indivíduo! Ah, a democracia! Quando morei lá, cheguei a lamentar ter sido criado nesta nossa cultura ibérica e católica. Fui, reconheço, um vira-latinha. Ah, o patriotismo! Ah, a vida nos suburbs! Até que me dei conta não apenas dos muitos problemas dos EUA, mas principalmente das muitas virtudes que fazem do Brasil um país melhor aqui e pior ali. Cheio de imperfeições e absurdos. NInguém está negando isso. Um país até revoltante (tell me about it!). Mas jamais um país que não deu certo. Isso nevah-evah!
Sucesso
O problema está na ideia que se faz de sucesso. Daquilo que deu certo e daquilo que deu errado. Materialmente, parabéns para os EUA. Potência riquíssima. Aquelas casinhas todas branquinhas e sem cerca. A inovação. O PIB, o IDH e o escambau. Mas aí você dá uma olhadinha na alma dos caras e percebe que os americanos são uns fucked-ups. Infelizes na busca pelo tal do sucesso. Solitários. Superficialíssimos. Incapazes de lidar com o fracasso material. Consumistas à toa. Idólatras de si, do dinheiro, da autossuficiência. Tão egoístas que agora inventaram essa coisa de que a compaixão, veja só, é uma virtude suicida. E por aí vai.
Além disso, quem disse que Brasil e Estados Unidos fazem parte de um mesmo “projeto civilizacional”? Não fazem. O Brasil tem outra alma. Mas, para reconhecer isso, é preciso acreditar na alma. Nossa alma que é mais barroca e tragicômica; que valoriza coisas como o afeto, a improvisação, a misericórdia, o famigerado jeitinho e a festa em meio ao caos. São qualidades que até os americanos de vez em quando invejam e para as quais não damos valor. E que têm lá seus custos. De qualquer forma, nem os EUA nem o Brasil deram certo ou errado de forma absoluta e “objetiva”; os dois países são apenas caminhos diferentes, com paisagens diferentes e obstáculos diferentes. Para quem é capaz de admirar a paisagem e sobreviver aos solavancos, claro.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



