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Hoje é dia de me lembrar de Geneton Moraes Neto. Que odiava aniversários, por sinal. Meu amigo Geneton, que estaria fazendo 70 anos. Isso se, há uma década, um aneurisma da aorta não o tivesse levado cedo demais. Demais, demais. Geneton que me ensinou tanto. E que nunca me deixou desistir – mesmo quando eu lhe dizia que já tinha desistido. De tudo. Geneton que, dentre as várias lições que me deu, guardo com especial carinho esta: não se faz jornalismo com tédio. Não se faz mesmo.
O jornalista tem que ser empolgado. Talvez até um tiquinho deslumbrado. Tem que encontrar assuntos onde ninguém procura. Tem que vibrar com histórias aparentemente inúteis e contá-las como se fosse um gol de bicicleta na final da Copa do Mundo. Cada qual na sua área, ao jornalista não basta informar. Ele tem que transformar a informação, qualquer que seja ela, do buraco de rua à taxa de juros, passando por crimes ou a chegada do circo na cidade, com o entusiasmo e o desespero de uma criança que puxa a saia da mãe para contar que perdeu o primeiro dente de leite. Ou ralou o joelho.
Um novo dia nasceu, pô!
No entanto, o que mais há no jornalismo hoje é tédio. Uma epidemia de blasécite. Tédio nos olhos que se reviram diante de mais uma denúncia. Nos bocejos que se abrem para mais uma porcentagem. Para uma legenda. Ou chapéu. Nos suspiros de quem não aguenta mais lidar com a matéria-prima do jornalismo. Que não é o que disse o Fulano ou rebateu o Beltrano nem a polêmica da vez nem o que o público quer ouvir. É a vida! Na preguiça de quem não vê motivo para falar tanto para tão poucos. Desânimo. Apatia. Tédio na submissão a narrativas, na prisão do algoritmo e no medo de desagradar o leitor.
Vontade de sacudir esse povo. De dizer que um novo dia nasceu, pô! Que você e eu e nós estamos vivos. Pode pôr aí na manchete: estamos vivos. E ao nosso redor o mundo fervilha de banalidades extremamente interessantes. A realidade acontece. A toda hora. Acorda, pô! Mas aí lembro que nem todos os colegas tiveram o privilégio de aprender o que aprendi com Geneton. Com aquele sotaque insuperável dele. Sua modéstia. Sua amizade desinteressada. Suas certezas tímidas. Sua risada fácil. Geneton que, se vivo fosse, talvez enxergasse cores onde tudo parece apenas preto ou branco, direita ou esquerda. Tediosamente. Sem nuances. Que saudade do Geneton!

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



