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Outro dia um leitor me repreendeu. Aliás, acontece bastante e é bom que seja assim. Afinal, quem provoca está sujeito a isso e meus textos quase sempre são provocações que geralmente escrevo rindo e alguns leem rosnando. Que seja. O fato é que fui repreendido e o teor da repreensão me chamou a atenção.
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Disse o leitor que meus textos são ruins porque pareço um homem em guerra consigo mesmo. Comigo mesmo. Ou algo assim, não sei, estou citando de cabeça. Li, reli, tresli aquilo. Mostrei aos amigos e até ao padre na esperança de que alguém me explicasse como viver em guerra consigo mesmo podia ser considerado um defeito, um problema, uma falha de caráter digna de repreensão e algo que se refletisse nos meus textos ruins. Mas ninguém conseguiu me explicar.
Quem não é assim?!
Sim, vivo em guerra comigo mesmo. Desde mais ou menos os doze anos de idade. Cada gesto, cada pensamento, cada palavra dita ou escrita é uma batalha. Não quero errar; quero fazer o bem. Mas tenho cá minhas mesquinharias e medos. Pow! Bum! Hoje um canhão destrói uma das muitas pontes que ligam o Deserto das Virtudes ao Jardim da Eternidade. Pow! Bum! Amanhã conquisto uma risadinha ou faço uma cosquinha na alma do leitor. Venci. Perdi. Não sem esforço, muito esforço, tentei.
Quem não é assim?! Quem não tem dúvidas mesmo quanto àquilo que jura ser convicção gravada na pedra? Quem não hesita – ainda mais se comunicando com a multidão? Quem sabe tudo e vive a paz dessa onisciência enganosa? Quem não olha para as estrelas e se faz mil perguntas, umas tantas heréticas, por sinal? Quem não se controla, não se contém, não silencia e não se questiona se é ocasião de dar a outra face... ou mandar praquele lugar?
Impressões sujeitíssimas ao equívoco
Vivo em guerra comigo mesmo e este meu campo de batalha é o que de melhor ofereço diariamente aos leitores. Não sei se você reparou, mas sempre tenho mais perguntas que respostas. Nunca escondi que minhas “análises” são impressões sujeitíssimas ao equívoco. Gosto de me provocar, de me contrariar, de me autodepreciar e de, ao fim do dia, me perguntar não só se fiz o certo, mas principalmente se fiz o bem. Tem dia que sim, mas tem dia que não. É quando tento me conformar sabendo que fracassei tentando.
De volta ao comentário do leitor, como se vê ele me deixou com todo um enxame de pulgas atrás da orelha. Porque esfregou na minha cara uma realidade que tenho me esforçado para ignorar: a do leitor que procura o texto apenas para confirmar sua opinião. Do leitor que rejeita a angústia das escolhas cotidianas como se ela fosse assim algum tipo de lepra. Do leitor que morre de medo de alguém perceber que ele está errado e, caramba, gente, todo mundo erra. Até eu. Principalmente eu.
Ruínas de certezas
E o curioso é que esse leitor avesso à guerra interior é sempre o primeiro a se voluntariar para a guerra exterior. Ah, as cruzadas que ele trava de celular na mão, no aconchego do sofá, dizendo que vai destruir o Sistema! (Vai nada). É o leitor que ainda não entendeu que este espaço é uma grande conversa, não uma aula, entre nós que nos reconhecemos imperfeitos e não raramente perdidos neste caos informacional. Nós que tentamos fazer o certo e o bem. Mesmo que nos custe.
Mas o que é que estou dizendo, meu Deus? Este espaço é um enorme campo de batalha em meio às ruínas das certezas que eu tive ontem e hoje não tenho mais. Nele jaz cotidianamente meu coração dilacerado por escolhas – umas certas, outras erradas. E você, sem querer, acabou de pisar num pedaço dele.








