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“Sai em defesa”. Pensando bem, não faz sentido. Afinal, a freira Nadia Gavanski, de 82 anos, e que tinha dificuldades de fala por causa de um AVC, está morta e enterrada. Em breve, será também esquecida. Mas você que é perspicaz e generoso em suas leituras entendeu o que quis dizer quando disse que Janja não saiu em defesa da freira. Não? Estou dizendo que a primeira dama de todas as causas não saiu em defesa da vida.
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A vida cuja dignidade nunca foi tão relativa. Varia de acordo com os ventos, a moda, as manchetes de jornal e até a espécie. E principalmente de acordo com a ideologia – essa mistura incestuosa de súcubo e íncubo e que está o tempo todo surrando em nossos ouvidos: pensa assim, pensa assado. Ataca este, defende aquele. Cancela, exalta. Ama, odeia. É a vida que vale de acordo com o voto, a opinião e a fé.
Se a freira fosse um cachorro...
E é aqui, bem aqui neste ponto do texto, que vou mencionar o argumento que se tornou um clichê: se a freira fosse um cachorro... Clichês, contudo, são atalhos mentais; são instrumentos que nos ajudam a reduzir a realidade a uma expressão, analogia ou aforismo, a fim de que possamos continuar no nosso passo firme, de nariz empinado e toda a empáfia de quem jura que está com a razão. Sempre.
Não, a irmã Nadia Gavanski não era um cachorro comunitário. Tampouco um simpático cavalo que ficou ilhado. Ah, a freira não era tanta coisa. Não era ativista senão do amor de Cristo. Que eu saiba, não era feminista militante. Não era cantora de funk nem (você vai se surpreender agora) uma tartaruga em extinção. Nadia Gavanski não era trans. A freira tampouco era correligionária e, em morrendo como morreu, não foi nem mesmo mártir dessas causas mundanas pelas quais os tolos acham que vale a pena morrer.
As palavras de Janja fariam alguma diferença?
E é por isso que até agora (sábado, dia 28 de fevereiro de 2026, 13h) a Janja não se pronunciou sobre a morte da freira. Nem ela nem ninguém entre aqueles que, de punhos cerrados, se manifestam sobre tudo o que lhes convém. Ah, sim, uns políticos aqui e ali demonstraram alguma indignação e prometeram zelar pela segurança pública. Mas a esta hora aposto que já deixaram a freira de lado para celebrar a nova guerra do Trump. Prioridades. Sabe como é.
Se as palavras de Janja fariam alguma diferença? Não tenho a menor ideia. Acho que não e é curiosa a sua pergunta, porque ela me obriga a encarar uma contradição muito típica do nosso tempo: esperamos que os outros, as autoridades, os influencers e até os cronistas de província digam aquilo que queremos ouvir e, quando eles dizem... não acreditamos. Eu, pelo menos, não acreditaria numa nota de pesar emitida pelo Palácio do Planalto. E no entanto é horrível viver assim, sem acreditar, sem confiar na intenção de ninguém. Não é?
Comoção e luto sincero
Não houve nem haverá, porém, demonstrações públicas de comoção e luto sincero pelo assassinato da irmã Nadia. Porque a freira não fazia “au-au!” nem ficava por aí, aparecendo no noticiário com cara de ódio e toda indignada “com os rumos do país”. Sim, por isso. Mas também porque estamos o tempo todo pegando atalhos mentais para reduzir nossos semelhantes a aliados ou inimigos, pelos quais vale ou não a pena se solidarizar ou sofrer ou se enlutar. Depende sempre do voto, da opinião e da fé.
E não haverá comoção nacional pela morte da irmã Nadia Gavanski principalmente porque ela era uma freira. Uma mulher que ousou ser religiosa num mundo para lá de materialista. Mundo mundano. Ela representava uma vida de abnegação e sacrifício, de serviço ao próximo e adoração a Deus. Ou seja, tudo o que esse povo que ama a submissão dos cães e tem nojo do ser humano, com sua insuportável liberdade, inclusive a liberdade de só se comover pelos seus, odeia.








