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Polzonoff

Polzonoff

Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

É o que saiu

Um lamento

LAMENTO
Detalhe do quadro "A Balsa da Medusa", de Théodore Géricault. (Foto: Wikipedia)

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Hoje eu quero começar o Gazeta Agora... com um lamento.

(E, desde já, eu peço desculpas a você. É que eu tô com um probleminha na voz. Então, se a voz falhar ou eu tossir e tiver que parar pra tomar um gole d'água, eu peço a sua compreensão).

Como eu dizia, eu vou começar o Gazeta Agora com um lamento.

É, um lamento! Simplesmente porque o lamento é justo nesta hora de derrota. Nesta hora em que um sentimento avassalador de decepção toma conta do Brasil.

Mais do que justo, ele é humano e, por isso, necessário. Pra você saber que não tá sozinho.

Derrota

Sobre a derrota de ontem, ela parece política, partidária e ideológica. Porque é isso o que tá na superfície e a maioria das pessoas enxerga.

Mas, pra quem tem olhos de ver, a derrota de ontem foi muito mais do que isso.

Foi a derrota da justiça, da decência e do que ainda restava de um país unido pela esperança.

Da Justiça porque simplesmente não há mais leis no Brasil.

Isso não é novidade, é claro.

Mas eu acho que até por um... instinto de sobrevivência, a gente (inclusive aqui no Gazeta Agora) tende a analisar a realidade partindo do pressuposto de que as leis ainda existem.

Justiça

De que há homens que ainda se submetem às leis. E eu não tô falando só das leis mundanas, não.

E mais: de que estamos cercados por pessoas que buscam fazer o que é certo, não o que é conveniente.

Ontem, infelizmente, ficou claro que essa não é a realidade no Brasil de 2026.

E essa é apenas uma das muitas lições que a gente pode e deve tirar desta derrota que (repito!) não se reduz ao aspecto eleitoral.

Ainda que este seja o aspecto que mais doa neste momento.

No Brasil de 2026, a lei se submete aos interesses dos homens que estão no poder. No tal do sistema. Jamais o contrário.

Perversão

E essa perversão se reflete na alma de cada um de nós. Até mesmo daqueles que não acreditam na existência da alma. Nesses, mais ainda!

E, novamente, eu não tô falando apenas da justiça abstrata das decisões do Supremo, das manifestações da PGR ou dos despachos do Ministério Público.

Não! Eu tô falando de algo muito mais difícil de identificar e de, neste caso, consertar, recalibrar, ainda mais coletivamente: o senso de justiça que habita cada um de nós.

Porque não pense que a derrota de ontem foi simplesmente a derrota do Flávio Bolsonaro, da direita, do bolsonarismo........... e  a vitória do Lula, do PT e do esquerdismo.

A derrota de ontem foi a derrota de um senso de justiça comum. Um senso de justiça baseado em coisas como a honra e a ideia muito cristã de que o poder nunca pode ser um fim em si.

Aparência de bem

De que há valores nobres pelos quais vale a pena lutar. E vale, sim.

São coisas, são valores que de uma forma frágil e até milagrosa nos uniam.

Nos unia enquanto um povo que tinha objetivos em comum. Entre eles a prosperidade e a felicidade.

Sim, a felicidade. Lembra dela? Quando foi a última vez que você se sentiu feliz por ser brasileiro?

Mas eu falava do senso de justiça ferido, pisoteado, moribundo e, neste momento, eu te garanto: respirando por aparelhos.

Um senso de justiça que muita gente perdeu ou jogou fora. Que muita gente trocou pelo prazer de pertencer ou de se sentir superior.

Pelo bem que não é bem. É só aparência de bem.

Senso de justiça

Um senso de justiça que muita gente vendeu, prostituiu pelo prazer de se sentir vencedor numa disputa que eles acham que é finita e sem sentido nenhum.

Mas que a gente sabe que é passageira e paradoxalmente eterna.

Se um dia a gente vai recuperar esse senso de justiça comum? Eu não faço a menor ideia.

E, como eu disse no começo, isto daqui é um lamento.

Então é natural que, num dia como hoje, eu me sinta tentado a dizer que não, que já era. Que a gente nunca mais vai recuperar o nosso senso de justiça.

Mas vai. Como e quando eu não sei. Mas vai.

Agora, pedindo um pouquinho mais da sua paciência, eu vou falar da derrota da decência.

Decência

E aqui talvez eu não devesse me surpreender, mas eu me surpreendo: é incrível como tem gente que não tá nem aí pra decência.

Uma gente que vive tão embriagada de cinismo, transbordando mediocridade, satisfeita com a mediocridade, e arrotando ressentimento e inveja.

E que hoje tá por aí, celebrando a vitória da mentira. E eles sabem que é mentira.

Eu não sei vocês, mas eu sou de um tempo em que mentir era feio. Era reprovável. Por qualquer ângulo que se olhasse.

E eu aprendi com o meu pai, que aprendeu com o pai dele, que nenhuma vitória ou conquista com base na mentira é digna de ser celebrada.

Quanto mais de ser usada pra tripudiar sobre os adversários.

Nenhuma vitória obtida com base na mentira é digna. Na mentira – e também na trapaça.

Fraude

E aqui pode ficar tranquilo que eu não vou entrar nesse papo de fraude.

Até porque, com a derrota, com a queda do chamado império das leis, com o esmagamento do nosso senso comum de justiça, e com o abandono da busca pela verdade... falar em fraude não faz o menor sentido.

Quando eu falo em trapaça, eu tô pensando menos no que o Zanin fez na noite de ontem, ou na matemática esquisita da apuração, e mais nos pequenos gestos de traição, de vilania e de perversidade que a gente viu ao longo da campanha.

Que a gente vê desde que a cizânia se tornou o objetivo máximo do Estado. E hoje, quase um quarto de século mais tarde, a gente vê contaminando o nosso cotidiano. As nossas relações.

As muitas fraudes morais que a gente vê minando a nossa capacidade de convivência.

Ou você acha que a vitória do Lula ontem vai aumentar a confiança entre as pessoas? Que o Lula vai unir o país?

Ou você acha que a vitória do Lula ontem contribui em alguma coisa pro bem comum?

Esperança

Claro que não.

Por fim, o que a gente viu ontem foi a derrota da esperança. Aquela que o dito popular ensina que é a última a morrer – e eu acredito nisso!

E quando eu falo em esperança aqui eu não tô falando de Flávio Bolsonaro. Nem de direita, bolsonarismo... Muito menos de Partido Liberal. Nada disso.

Eu não tô falando na esperança ideológica. Até porque qualquer um que leu Dostoievski sabe que a ideologia veio pra escravizar, não pra libertar. Jamais pra libertar.

Eu tô falando... daquela esperança que é até difícil de definir e expressar. É só esperança. Tá na palavra.

A esperança que não é uma espera estéril. Ou pelo menos deveria ser.

A esperança que não é uma espera impotente.

A esperança que é esperar, agindo com virtude, pra que o bem prospere.

A esperança que às vezes também é esperar, com paciência, fé e (repito!) ação virtuosa, que a tempestade se dissipe.

Lembrando que não existe prisão pior do que um coração sem esperança.

Sofrer

Hoje tá difícil, gente. Tá difícil pra mim e eu sei que tá difícil pra muitos de vocês.

E não pense que eu vou encerrar com um discurso motivacional, dizendo pra você aí levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, não.

Pelo contrário. Hoje é dia de sofrer. Afinal, o sofrimento também tem o seu dia. O sofrimento também tem o seu propósito.

Hoje é dia de lamber as feridas. De refletir.

Hoje é dia de abraçar quem tá assim meio pra baixo. E não precisa ter vergonha de ficar triste, não. Eu também tô.

Hoje é dia de se unir àquelas pessoas que, apesar da derrota de ontem, e apesar de estarem hoje sofrendo, ainda acreditam.

Acreditam na justiça e na decência. Na verdade e na liberdade.

O bem sussurra

Lembrando que tudo isso que dói, dói muito, tá doendo demais hoje (a vitória do Lula, a comemoração dos petistas, a zombaria, a injustiça, a trapaça, as muitas mentiras e a indecência)... Tudo isso só mostra que o mal é estridente.

E ridículo nessa sua estridência.

Enquanto o bem... o bem sussurra.

E a gente tem que estar bem atento pra ouvir esse sussurro. Porque ele é divino.

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