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O uísque single malt escocês Macallan está no centro do escândalo envolvendo esse Judiciário que, como disse o arauto da moralidade Flávio Dino, é o mais corrupto da história. Dele beberam Paulo Gonet, com direito a foto e tudo; Alexandre de Moraes, Andrei Rodrigues e Dias Toffoli. Parece que Nunes Marques também e não vou me espantar se algum outro ministro tiver se fartado do líquido dourado, transformado em símbolo da corrupção e da cafonice supremas. Mas a questão do título se mantém: Macallan é bom? Vale esse hype todo?
É, mas não é o melhor uísque do mundo. Longe disso. Tem o GlenAllachie, por exemplo, que é melhor e mais barato. O Balvenie, o Aberlour e o Glenrothes também são alternativas. Mas o Macallan... Ah, o Macallan tem aquela coisa que faz brilhar os olhinhos jecas de gente como Daniel Vorcaro: o fator ostentação. Não se bebe Macallan pelo sabor, pelas notas sutis, pelo aroma trufado (que, aliás, acho que ele nem tem). Bebe-se Macallan para dizer “bebi Macallan e paguei tanto pela garrafa. Foi mara”. Sobre isso, imagino que a marca esteja montando um comitê de crise para evitar que o nome Macallan seja associado a uísque de bandido. Tarde demais?
Bad vibes
Aliás, uísque se escreve com “u” e “q”. Eu sei, eu sei. Tem gente que insiste em escrever whisky. Me dá nos nervos. Coisa de snob. Se a palavra “uísque” existe em português e é até bonitinha, para que usar “whisky”? Talvez seja para ostentar o dábliu e o ípsilon, ambos sinais de sofisticação e cosmopolitismo entre essa gente que não para de me impressionar pela jequice. Uma gente que não está nem aí para o país; que só quer participar dos rolezinhos, beber um uisquinho (se duvidar, com gelo de água de coco), fumar um charutinho, assinar um contratinho e passear de jatinho. Mas a crônica está terminando e não respondi ainda à pergunta do título.
Macallan é bom, sim, mas pode ser ruim. Como qualquer outra bebida, o sabor vai além da qualidade do malte, da água e do marketing. Muito além. Depende do contexto em que se bebe. Eu, por exemplo, só bebi Macallan em contextos ruins. Péssimos. Para mim, portanto, o uísque tem sabor de desespero. Não bebo nem de graça, quanto mais na companhia de larápios e canalhas. Em compensação, já bebi Johnnie Walker ou mesmo Wall Street (R$10 a garrafa, na época) que tinham gosto de camaradagem e de esperança. Hoje evito uísque. Por melhor, mais caro e mais hypado que seja. Sei lá. Bad vibes.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



