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Dilema

Você doaria meias a um estuprador com frio nos pés?

MEIAS ESTUPRADOR
Nunca foi tão difícil doar meias. E a pergunta que fica é: quem é o meu próximo? (Foto: Gemini)

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Na missa, é chegada a hora dos avisos paroquiais. O bispo auxiliar da Arquidiocese de Curitiba, Dom Zico, está pedindo meias de qualquer cor, menos pretas*, para os internos do sistema carcerário. Os presos. Presidiários. Bandidos. Quem transmite o recado é o padre Alex, da Paróquia Santo Agostinho. Fazendo a ressalva de que o motivo que levou aqueles homens e mulheres à prisão não importa. O que importa é o gesto de caridade.

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Ao meu redor, as pessoas trocam olhares desconfiados. Centenas de sobrancelhas se arqueiam. Rugas formam ondas furiosas em testas confusas. Não sei se o gesto é de indignação ou reflexão. Quero crer que seja de reflexão, mas acho que é de indignação. O padre diz que as meias podem ser depositadas num cesto diante do altar. Fico na ponta dos pés para olhar o cesto. Vazio. À saída da missa, ouço alguém perguntando a outro alguém: e se o preso for um estuprador?

Difícil

São questões. E se for um assassino, um latrocida, um sequestrador, um pedófilo, um canibal? As possibilidades infelizmente são várias. Tá, mas e se as meias forem para Filipe Martins ou alguém preso injustamente? Ou você vai me dizer que isso não acontece? No caminho até o carro, nasce este texto. Fico pensando no velho ensinamento segundo o qual devemos odiar o pecado, mas nunca o pecador. É difícil. Muito difícil.

E é difícil justamente porque é o correto. Pensar que o criminoso já está sendo punido com a privação da liberdade, que ele tem o potencial de se arrepender e se regenerar. Ou, em termos religiosos, de ser salvo. Mas é difícil. Não cabe a nós acrescentarmos mais essa camada de castigo e sofrimento à alma alheia. Mas é difícil. Ah, meu Deus, como é difícil. Nunca imaginei que doar meias a outro ser humano com frio pudesse ser tão difícil e, por isso mesmo, necessário. Mais para quem doa (muito mais!) do que para quem está com frio nos pés.

* As doações podem ser feitas na paróquia Santo Agostinho, r. Eurípedes Garcez do Nascimento, 1035, Ahú, Curitiba – PR. Mas atenção: doe apenas meias que não sejam pretas, porque essa cor é de uso reservado aos agentes penitenciários.

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