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Zanin ia passando pelo gabinete de Dias Toffoli quando ouviu uma gargalhada. “Esse tá tayayá das ideias mesmo”, pensou e continuou andando. Mas a curiosidade falou mais alto e ele bateu à porta do colega. Digo, à porta da sala do colega. Toffoli estava todo roxo. Tinha se engasgado de tanto rir e agora se recuperava com um generoso copo d’água. Acho que era água. “Cara, você tem que ler isso aqui”, disse ele, mostrando ao colega de toga uma cópia do clássico “Defensor da Democracia é uma Ova”. Zanin pegou, olhou, olhou de novo e saiu correndo para dedurar o Toffoli. Que ficou ali e saiu da história.
No elevador, Zanin encontrou Gilmar Mendes. “Ah, você tá lendo também?”, perguntou o boca-pra-baixo. Zanin fez que não, mas nem teve tempo de explicar, porque Gilmar Mendes logo emendou um elogio. “É uma das melhores coisas publicadas neste país. Minto. A melhor, a melhor”, disse. “Mas não espalha, porque se o Alexandre de Moraes fica sabendo a gente tá ferrado”. Ele não falou “ferrado”; falou outra coisa. Um tanto quanto atordoado, Zanin se pegou folheando seu exemplar do “Defensor da Democracia é uma Ova” e se perguntando se aquilo era bom ou se era uma afronta às instituições democráticas.
Vai desobedecer?
Dino entrou no elevador. Mencionei que iam todos ao gabinete de Alexandre de Moraes? Iam. Um para falar mal de André Mendonça, outro para falar mal do Luiz Fux e o Zanin para denunciar o livro do jornalista da Gazeta do Povo. Com certeza um golpista! Ao ver a inconfundível capa da coletânea de crônicas, porém, Dino abriu aquele seu sorrisão de deboche despotamente esclarecido. “Isso é bom demais. Li de uma sentada. Hahahahaha”, disse e riu ao se lembrar da crônica em que Paulo Polzonoff Jr. vai ao boteco com Alexandre de Moraes. Ou então aquela outra. Aquela.
Por fim, chegaram os três ao gabinete de Alexandre de Moraes. Bateram e entraram. O “data vênia” substituindo o “abre-te, Sésamo”. Lá, encontraram a calva mais famosa do Brasil com os olhos maníacos vidrados no livro. Momento de tensão. “Essa é a melhor coisa já escrita na história do Universo”, disse. Os demais ministros se sentiram aliviados. Não sei por quê. A alguns metros dali, em seu gabinete, até o ministro André Mendonça sentiu um calafrio. “Também acho”, apressou-se em concordar Zanin, que nem tinha lido nem nada. “Pessoal tem que baixar”, disse Flávio Dino. “Baixa aí, pessoal! Ou melhor, AQUI!”, ordenou Gilmar Mendes. Vai desobedecer?

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



