
Ouça este conteúdo
Tenho noção da minha insignificância. Tanto que, quando os policiais chegaram às suntuosas e nababescas instalações dos Estúdios Gazeta do Povo, achei que fosse pegadinha do malandro. A coisa começou a mudar de figura quando me algemaram e me colocaram num camburão da PF. Aí comecei a desconfiar de que a coisa podia ser séria. “A casa caiu, Polzo!”, “Fascistinha vai dormir de conchinha com o Filipe Martins, hein!”, “Hoje a jiripoca vai piar!”, riam, zombavam e intimidavam os agentes da PF.
Até que chegamos. Onde não sei. Cobriram meu rosto com um capuz e fui levado por corredores, escadas e elevadores até uma sala. Fiquei lá por muito tempo. Horas, talvez. Tempo o bastante para eu pensar na morte da bezerra & outras histórias. Até que ouvi a porta se abrindo e se fechando. Passos. Alguém arrastando a cadeira e se sentando. Tiraram meu capuz. Era ninguém menos do que Alexandre de Moraes me encarando com olhos maníacos. “Não precisa ter medo”, disse ele. “Quero apenas esclarecer uma coisa”. Sinceramente? Não estava com medo dele. Estava com medo da reação da minha mulher quando ficasse sabendo disso tudo.
Eu não sou besta...
Esperei. Alguém entregou uma folha ao ministro. “Aqui nesta sua crônica, em que você exige que eu explique os 129 milhões, hahahahaha, até parece, neste trecho aqui, ó, você diz que as pessoas se referiam a mim por diversos termos. Termos que rimam com ‘truta’”. Pensei em explicar que era uma crônica, seu burro!, uma crônica! Mas achei melhor ficar quieto. E ele: “Afinal, que termos são esses que rimam com truta?” Na hora, percebi a oportunidade de bancar o herói. A palavra começou a se formar na minha boca. O efe e o i. Tem hífen? Mas aí me lembrei da música do Raul Seixas (“eu não sou besta...”) e principalmente da bronca que levaria da minha mulher. “Tô ferrado”, pensei, desejando por um instante dormir de conchinha com o Filipe Martins mesmo. As the spooner, not the spoonee. Tá me estranhando?
Luta, fruta, gruta, recruta, conduta, astuta, araruta, minuta, impoluta. São várias as palavras que rimam com “truta”. Nenhuma convincente o bastante. De novo me deu vontade de falar a verdade. “Posso falar?”, perguntei só para ganhar tempo. Ele meneou a cabeça e sorriu aquele seu sorriso de vilão de história em quadrinhos. “A palavra que rima com “truta’ e que usaram para se referir ao senhor era... batuta!”. Alexandre de Moraes pareceu aliviado. Ouvi aplausos e gritos de “é isso aí, chefinho!”. “Então as pessoas querem saber quando é que o batuta, o batutão aqui vai explicar os 129 milhões?”, perguntou ele. Fiz que sim. Moraes ficou sério de novo e, sem hesitar, quebrou ali mesmo meu sigilo de fonte: “E quem foram essas pessoas? Quero nomes”.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



