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Polzonoff

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Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Finados

Meus mortos como me lembro deles

FINADOS MORTOS
Meu bisavô e meus avós paternos, todos mortos. No colo e no chão, tias tios e meu pai, todos vivos. (Foto: Paulo Polzonoff Jr.)

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Do avô Pedro ficou apenas a má fama, coitado: bêbado e jogador. Morreu cedo. Deixou à míngua a viúva e as quatro filhas. Um irresponsável de quem nunca ouvi coisa boa. Triste. Não o conheci. Morreu de câncer no pulmão. Ou de cirrose. Ou das duas coisas. O que pensou o avô Pedro na agonia? Que dores o levaram ao vício? Tinha ele algo de bom? Toda uma biografia inacessível. Talvez o inferno seja isto: viver na mentes dos netos como um mau exemplo. Um alerta. Mais uma cerveja, Paulinho? Teu avô foi assim e deu no que deu. Que dó.

Do outro avô a lembrança é um pouco melhor. Reza a lenda que morreu no colo do meu pai. Doença de Chagas. E pensar que hoje têm por vilão qualquer branco. Pode um opressor morrer de doença de Chagas? Doença de pobre miserável. Por acaso todo branco é opressor, mesmo que tenha vivido numa tapera? Dizem que era bom e que morreu sem realizar o sonho de se naturalizar brasileiro. Minhas pesquisas dizem o contrário. Mas quem sou eu para tirar da família essa mágoa? Chamava-se Alexandre, esqueci de dizer. Meu nome era para ter sido Alexander ou Alexsander, em homenagem a ele. Ainda bem que não é.

Analfabeta e namoradeira

Da avó Olenka me lembro pouquíssimo. Era uma bruxa, não queria o casamento dos meus pais, não gostava da minha mãe. Ao menos assim ela entrou para a história familiar. Talvez não fosse nada disso, mas a lenda pegou. Talvez fosse muito pior. Uma vez fui visitá-la e ela me tratou como um estranho. Para compensar, me joguei no chafariz do jardim. Apanhei, molhei a sala toda, mas me vinguei. Ana era o primeiro nome dela. Morreu ejetada de um Escort XR3, ali na entrada de Joinville. De madrugada, fomos ao enterro lá em Umuarama. Não entendia nada. A mãe do pai morreu. Não o vi chorar a avó maldita.

Enquanto a vó Olívia... Ah, a Olívia. Dona Olávia, para os íntimos e ousados. Ela ficava furiosa. Dela dizem que herdei o bom humor. Não sei onde. Depois da morte do vodrastro, a velha curtia um bailão. Era analfabeta e namoradeira. Se recusava a envelhecer. Uma vez disse que era ateu e ela saiu correndo, gritando deusolivre!, deusolivre!, deusolivre! Pedia para ver todos os panos das lojas da Praça Tiradentes e não levava nenhum. Vinha a Curitiba de Viação Garcia. Quando ela ia embora eu chorava, sem saber por quê. Um dia morreu e não fui ao enterro para não encontrar os primos. Que idiota eu sou.

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