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Nelson Rodrigues apontando para o leitor. Mas os covardes dirão que ele está “fazendo arminha”.
Nelson Rodrigues apontando para o leitor. Mas os covardes dirão que ele está “fazendo arminha”.| Foto: Reprodução/ Wikipedia

A ideia hoje era (é) fazer uma homenagem a Nelson Rodrigues, com uma versão da célebre crônica “O Ex-Covarde”, na qual ele explica por que desandou a falar de política. Logo ele, Nelson, tão mais preocupado com a natureza humana, celebradíssimo entre a esquerda e que virou um crítico dos “padres de passeata” e dos intelectuais e artistas lebloninos que já eram hipócritas naquela época.

A crônica começa com um diálogo na redação do jornal. Um colega chama Nelson Rodrigues e lhe pede para explicar um mistério. Ao ouvir a palavra “mistério”, o cronista se senta, acende um cigarro, outro e outro. E escuta o mistério que andava tirando o sono do colega de redação: naquela época, o assunto dos textos de Nelson Rodrigues era só política. Por quê?!

“É uma longa história”, começa Nelson. Sempre é. Para, logo em seguida, sair-se com a confissão que dá título ao texto: “Sou um ex-covarde”. Sem parar de falar, o cronista dá início a uma digressão sobre a pusilanimidade pandêmica não só entre “pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa”, mas também entre “reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a TV. Quase tudo e quase todos exalam abjeção”.

Nelson Rodrigues falava de um Brasil pré-redes sociais, pré-PT, pré-bolsonarismo, pré-STF protagonista. Mas não há como negar a atualidade da constatação, ainda que ela seja um tanto quanto generalista e pessimista demais para o meu gosto. O interlocutor de Nelson, aliás, percebe isso e pergunta a ele se “somos todos abjetos”. Ao que o cronista responde com o óbvio “nem todos”, acrescentando, porém, que “todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo”.

Todo esse papo, porém, é só um carinhosinho para preparar o espírito do leitor. Porque o que vem em seguida, amigo, é digno de um “uau!” daqueles bem escandalosos. É neste momento que, em imaginação, me vejo diante do colega que me ataca com perguntas que pretendem descortinar o meu caráter e que vão além do mero porquê. Me refiro, aqui, a perguntas como “por que você não se revolta?” ou, por outra, a dúvida impertinente do “por que você não diz só o que as pessoas querem ouvir?”.

Talvez eu devesse seguir os passos de Nelson, fumar quatro cigarros seguidos, tragando-os demoradamente, para então explicar que “o que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. (...) Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a “Razão da Idade”. Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total”.

Com licença, mas preciso repetir essa frase, dessa vez em itálico e negrito. "Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total"".

Aí, nesse meu delírio que é homenagem que é citação que é argumento, explicaria que “não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário”. A fim de tornar o texto mais atual e de associá-lo ao ambiente muitas vezes belicoso de uma redação de jornal, diria que há, ainda, o medo de não parecer empático, de soar negacionista e de não concordar com a Grande Cartilha Não-escrita da Obediência.

Na crônica, publicada em algum momento dos anos 1960, Nelson Rodrigues se perde em digressões sobre o medo quando, de repente, lembra-se do interlocutor ainda diante dele. E ainda com a testa franzida, sem uma resposta clara para o porquê inicial. E eis que, como se estivesse diante do espelho, Nelson explica o que era de fato, isto é, um pusilânime “como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos”. Alguém que, por covardia, silenciava ou aquiescia.

Redenção, porém, é o tema central de toda a obra de Nelson Rodrigues. E, neste caso, não poderia ser diferente. “Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma”, escreve ele, para citar tragédias que fizeram de Nelson Rodrigues quem ele foi. Por mais que o ministro Marco Aurélio Mello negue, é o sofrimento o que nos molda e, por que não?, edifica. A cruz que todos carregamos. Tenho as minhas, o leitor tem as suas. O colega fictício que me pergunta “por quê?!” tem as dele.

Para alguns, porém, chega uma hora em que o medo deixa de fazer sentido. E a verdade (a verdade, e não o que o leitor quer ler) prevalece. Daí o “ex-covarde” do título e da postura nelsorodrigueana que não é necessariamente de enfrentamento, e sim de alívio. Um alívio que, ouso dizer, compartilho neste momento em que o texto vai chegando ao fim. “É maravilhoso poder dizer tudo”, escreve ele, para concluir com um trecho que, aqui, parafraseio e atualizo:

“Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das esquerdas ou do Poder Jovem ou do Poder Velho ou da Venezuela ou da sinalização da virtude ou do cancelamento ou dos LGBTs ou de Lula ou de Felipe Neto ou de um ou outro que, de tão covarde, xinga protegido pelo anonimato. Não! Não trapaceio comigo nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho”.

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