
Ouça este conteúdo
Sábado, 8 horas da manhã. Estou indo daqui a algum lugar. No caminho, atravesso um bosque e umas curvas em descida no fim das quais encontro o personagem desta crônica. Ele é um homem real. Chuto ter uns quarenta anos, mas sou ruim de adivinhar a idade. Obesinho tipo eu. De pé na calçada, ele fuma um cigarro. O detalhe está na vestimenta: calça de moletom cinza e a camiseta vermelha com a estrela do partido e a cara estilizada do Lula. É um petista que faz questão de mostrar que é. Àquela hora da manhã.
Lembre-se de que estou de carro. Apenas passo por ele a uma velocidade razoável, mas que sem dúvida faria minha mulher dizer “vai mais devagar, Paulo”. O petista, pois, é só um borrão. Dele não sei o nome e nem me ocorre baixar o vidro para perguntar ei, petista, qual o teu nome? Na verdade, a princípio o que me chama a atenção nele é apenas o ar contemplativo e o cigarro na boca. Será que ele não sabe que dá câncer? Ou será que não tá nem aí? Me lembro de que não sei tragar. Me dá vontade de fumar um charuto. Aí reparo na camiseta e algo muda. Tudo muda.
Pegou comunismo
Daquele homem anônimo tiro mil e uma conclusões. É defensor de bandido. Talvez até seja bandido. (Me arrependo de não ter reparado se ele usava tornozeleira eletrônica). Ou vai ver tem amigos que são petistas e, sei lá, pega mal. É funcionário público. Pior: professor. Mil vezes pior: jornalista. Recebe Bolsa Família. Tem raiva do vizinho que é bolsonarista. Pegou comunismo ouvindo Chico Buarque. Morre de medo de o Brasil voltar a ser uma ditadura. Considera a Débora do Batom uma terrorista perigosa. Perigosíssima.
Ou acredita que Flávio Bolsonaro vai tirar o gás da Coca-Cola ou aumentar a segunda-feira para 48 horas. Hahahaha. Essa foi boa. Talvez tenha perdido um ou mais entes queridos para a Covid e culpe Bolsonaro por isso. É bem comum, aliás. Me pergunto se ele entende algo de alguma coisa e apressadamente concluo que não. Que se trata de um idiota irremediável. Num átimo, tenho-o por adversário e me sobe assim uma repulsa vergonhosa. Mais por mim do que por ele. Até que me ocorre: e se o homem estiver usando aquela camiseta ironicamente? Jamais me ocorre que o errado possa ser eu.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



