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...a ser governado por quem gosta. Você já deve ter ouvido isso por aí. Trata-se de um julgamento moral clássico. Um chamado à militância permanente. É como se você não pudesse ser livre sem se envolver com política. Política partidária. Óbvio que pode. Afinal, a alienação política é uma opção legítima. Por mais que eu e você possamos discordar dela. Aliás, ouso dizer que, ao longo da história, os melhores momentos da Humanidade foram aqueles em que não precisávamos acompanhar de perto, roendo as unhas ou ficando vermelhos de raiva, as decisões que os políticos tomavam por nós.
Por quê? Esse é o dilema que proponho nesta crônica, me e te perguntando por que nos deixamos ser governados por esses que, segundo o truísmo, gostam da política. Gostam tanto que às vezes se deixam aprisionar por ela. E aqui, só para não parecer que é um reles cronista de província falando, recorro ao Jordan Peterson, naquele trecho do “12 Regras” em que ele fala que, quando nos tornamos obcecados por derrotar nossos inimigos, damos poder a eles. Como discordar disso vendo pessoas que vão dormir e acordam pensando em Lula, Bolsonaro, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes?
O que me preocupa
Tem algo de errado nisso. Muito errado. E aí novamente me pergunto: há alguma forma de não nos deixarmos governar por esses que “gostam” de política? E mais: no que esse governo nos afeta de fato? Pergunto essas coisas porque, sei lá, apesar da corrupção e dos impostos e do autoritarismo e da ineficiência dos serviços públicos, me sinto livre para pensar o que bem entender. Para agir como bem entender. Para errar mais do que acertar. Para buscar a felicidade e, enquanto for possível, a santidade.
Não quero, com isso, menosprezar a discussão política. É legal. Divertido. Às vezes, bem às vezes, é até empolgante. Pode ser uma grande fonte de aprendizado para a vida cotidiana e claro que a política merece atenção, mas na medida certa. Sem falar que bota comida na minha mesa e tal. O que me preocupa é essa tendência, entre a omissão e a preguiça, de ignorarmos os dilemas íntimos em favor da ideologia. Essa tendência de trocarmos a caridade real, possível, ao alcance da mão, hoje e agora, pela caridade que se escreve e inscreve nas leis, mas que jamais é de fato praticada.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



