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Polzonoff

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Prosódia

Récorde ou recórde? A pergunta de 10 milhões de reais

RECORDE MULTA GLOBO MPF
César Tralli: acusado de lesar a língua portuguesa ao falar errado a palavra "recorde". (Foto: Reprodução/ TV Globo/ ChatGPT)

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O Ministério Público Federal em Minas Gerais, por meio do procurador Cléber Eustáquio Neves, está numa empreitada curiosa. Ele quer corrigir o modo como eu, você e principalmente os apresentadores da Rede Globo falamos o estrangeirismo “recorde”. Sim, a palavra. E, para isso, o purista quer que a emissora se retrate publicamente, pague uma multa de R$10 milhões e, claro, que os apresentadores parem de falar “errado”.

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Mas trago más notícias ao procurador de ouvidos sensíveis, sensibilíssimos. Não é só “recorde” que a emissora e os brasileiros falamos errado. De todas as prosódias problemáticas do jornalismo brasileiro, as que mais me incomodam são “gratuito” e “subsídio”. Mas, ampliando os erros para além da prosódia, tem também os plural, as regências aleatórias, o “melhor” no lugar de “mais bem” e o fim dos verbos reflexivos.

AVC

O que, pensando bem, me deu uma ideia. Ei, Cléber, e se a gente processasse, ou melhor, mandasse prender de uma vez todo mundo, não só jornalistas, que fala “rezistro”, “aerosol”, “adevogado”, “mindingo”, “mortandela”, “guspir”, “beneficiente”, “dedetizar”, “iorgute” e “losângulo”? Depois a gente podia mandar prender quem não separa vocativo com vírgula. E esse povo todo que desandou a falar estadunidense, então? Cadeia neles já!

Fico imaginando o procurador lendo minhas colunas aqui na Gazeta do Povo. Coitado. Ele deve passar nervoso com minhas frases que começam com pronome oblíquo, minha ojeriza à mesóclise, minha pontuação que privilegia a oralidade ao gramaticalmente correto, minhas contrações coloquiais, meus neologismos, meus estrangeirismos, etc. Aliás, fico imaginando o que vai acontecer se um dia o procurador ler Guimarães Rosa, conterrâneo dele. É capaz de ter um AVC.

Braço do Estado

Mas se você está achando que eu sou bobo e que caí na pegadinha do procurador purista... Achou errado! De bobo só tenho a cara e o jeito de andar. Sei que a ação não tem nada a ver com o amor transbordante que o procurador sente pela última flor do Lácio. Trata-se de uma picuinha com a Rede Globo, que ele considera “um braço do Estado na difusão de informações”. E tudo bem ele considerar a Globo assim. O problema é dele. Agora, usar o MPF para isso? Ora.

Aí já viu. Não precisa ser nenhum Napoleão Mendes de Almeida, muito menos membro cativo da Academia Brasileira de Letras, para perceber que o procurador, que trabalha num “braço do Estado” por excelência, o Ministério Público Federal, só está querendo aparecer e se vingar da Globo. E eu aqui, batendo palma para vê-lo dançar. Tsc, tsc, tsc.

R$970 mil/ano

Mas, para efeitos cronísticos, vamos fingir que não. Que o procurador de fato teje preocupado com a “lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa” causado pela pronúncia errada da palavra “recorde” – que eu, por sinal, falo das duas formas, dependendo do contexto, do humor, do clima, da pressa, do cuidado, do público e, neste momento, da vontade de afrontar o MPF: récorde, récorde, récorde, récorde, récorde.

Vamos fingir para perguntar: será que ele não percebe quão ridículo é receber por ano R$970 mil do nosso dinheiro, de acordo com dados do próprio MPF, e usar o poder de coação e toda a estrutura do Estado para mover ações desse tipo? E será que quem apoia a medida não percebe que esse tipo de coisa sempre (sempre!) se volta contra os oportunistas?

Chopis centis

É sempre assim. De tempos em tempos surgem uns puristas, uns fariseus para dizer o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode. No começo do século XX, os integralistas eram muito zelosos nesse sentido. Já na década de 1970 apareceu José Cunha Lima, que considerava Machado de Assis um analfabeto. Depois me lembro do Aldo Rebelo querendo proibir palavras como “shopping center”, “delivery” e “notebook”. E o país ainda está cheio de gente que se considera herói por acentuar “idéia” para demonstrar seu repúdio ao mais recente Acordo Ortográfico.

É uma gente pequena, insegura, de imaginação estreita, postura intransigente e intenções pra lá de questionáveis. Uma gente que confunde a submissão total às regras gramaticais com inteligência, conhecimento, respeito à ordem, patriotismo e até, em casos extremos, sabedoria. Ou, no caso do procurador Cléber Eustáquio Neves, coitado, com arma política na guerra cultural. Dá preguiça, raiva e até um nojinho. Mas sobretudo dá é pena.

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