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Sebastião Uchoa Leite. Um poeta. Só de escrever o nome me dá um troço. Tenho dificuldades para associar o nome à pessoa. Ao ser humano. À única foto que vi dele, isso há quase 25 anos. Ele que para mim era apenas um nome na capa de um livro. Sebastião Uchoa Leite. O homem que destruí, acho que destruí, sei lá se destruí. Não era para tanto – ou era? Um homem cuja tentativa de destruição me destruiu. Disso não tenho a menor dúvida. Destruiu o que eu fui um dia e o que eu pretendia ser. E, assim, fez as vezes de anjo. Ainda bem e obrigado.
Foi no comecinho de 2003. O Rogério marcou um café. Fomos ali ao extinto Exprèx, na XV. Naquela época, éramos uns doidos, uns irresponsáveis, uns rebeldes. Eu ainda sou um pouquinho. Bem pouco. Achávamos que mudaríamos a literatura, o que quer que signifique isso. Ele pôs o livro sobre a mesa. Peguei o livro, folheei e ri. Sabia o que tinha que fazer. Rogério não precisava falar nada, mas falou: esse vai fazer barulho. Vai irritar muita gente. O livro era “A Regra Secreta”, de Sebastião Uchoa Leite. A mim cabia destruí-lo, demoli-lo, arrasá-lo, humilhá-lo. Só para ver o parquinho pegando fogo. E pegou e me queimei.
Cancelamento
Escrevi. Aliás, escrevemos. O texto é assinado por nós dois. Estava relendo aqui e não consegui nem terminar. É horrível (desculpe, Rogério). Bem escrito e tal, mas insuportavelmente leviano. Os ataques são mais ao autor do que à poesia, que era ruim mesmo. Me lembro vagamente do processo de criação dessa peça. As idas e vindas do texto. Cada um acrescentando uma punhalada. Me lembro mais da felicidade, da satisfação de ver o texto publicado – e na primeira página do jornal, ainda por cima. Jornal de papel. Com cheiro e tudo. Quanta bobagem!
Nunca me arrependi tanto de um texto. Porque não sabia e o Rogério não sabia que Sebastião Uchoa Leite estava morrendo. O mundo literário, que sabia, se revoltou. Fomos cancelados antes de a palavra ter esse sentido. Como é próprio dos jovens, achei que minha carreira, ou melhor, minha vida acabava ali. Por causa daquela estupidez. Me arrependi. Da virulência do texto, sim, e também por causa do Sebastião, que morreu em novembro do mesmo ano. Eu não era um monstro. Só estava cheio de mim. Queria ter podido pedir desculpas. E agradecer por ele ter me esvaziado. Às vezes rezo pelo poeta.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



