
Ouça este conteúdo
Como você deve ter ficado sabendo, o velho Sísifo foi condenado pelos deuses ao trabalho penoso e inútil de rolar uma pedra até o alto de uma montanha. Só para vê-la rolar de volta até o sopé – palavra que usei pela última vez lá por volta de 1984, quando aprendi a ler e a escrever.
ENTRE PARA A MINHA COMUNIDADE NO WHATSAPP!
E lá estava o safado, dia sim e dia também, cumprindo o seu castigo eterno. Um castigo ao qual, cá entre nós, ele estava resignado. Mais uns dois ou três mil anos e eu diria que ele estaria gostando do suplício.
Até que.
Assim, ó
— Se você colocar as mãos mais em cima fica mais fácil — ouviu Sísifo, já quase no topo da montanha. — Assim, ó.
Mas será que ele ouviu mesmo? Não, não ouviu. Não era possível que tivesse ouvido. Balançando a cabeça e rindo de si para si, Sísifo continuou empurr—
— Tem que aumentar o torque! — ouviu ele, que não sabia o que era torque, mas já tinha ouvido falar de loucura.
— Respira pelo nariz! Pelo nariz!
— Vai devagar. Consistência é tudo.
— Vai mais rápido que você cansa menos.
Esse cara é muito burro
Sísifo olhou para um lado e não viu ninguém.
Olhou para o outro e não viu ninguém.
Ergueu a cabeça e viu o cume da montanha. Sem ninguém.
Daí Sísifo olhou para trás e viu ela, a multidão.
— Mais pra esquerda! — gritou alguém.
— Não, não, não. Mais pra direita! — gritou Outrem. Outrem? Sim, o Outrem da Silva. Grande sujeito!
— Continua assim em linha reta — gritou um terceiro cujo nome era Genivaldo. Conhece?
E Sísifo lá, sem saber quem eram aquelas pessoas e sem entender o que elas diziam naquele insuportável sotaque que ele não sabia, mas era carioca.
— Você tá fazendo errado — disse uma pessoa, provavelmente uma mulher, por causa da voz fina, mas hoje em dia não dá para cravar.
— Esse cara é muito burro. Eu é que não vou ficar aqui vendo isso — julgou outro, dando as costas para o desgraçado, a rocha e a montanha, e pisando forte, todo revoltadinho. Precisava ver.
Um passo. Mais um passo. Tantos passos
Atordoado por aquela novidade, Sísifo tombou a cabecinha assim para a direita um pouco e viu que o cume estava próximo. Ele decidiu ignorar a falação lá embaixo e seguiu cumprindo a pena que os deuses lhe impuseram.
Um passo. Mais um passo. Tantos passos.
Outro passo e Sísifo se deu por satisfeito, como fazia há milhares de anos e tanto quanto era possível se dar por satisfeito naquela situação. Agora era soltar a pedra e deixar que ela rolasse morro abaixo.
— Tá faltando um pouco ainda — disse alguém e isso Sísifo entendeu porque o sujeito na verdade disse assim: — Σχεδόν φτάσαμε!
Não estava.
τι στο διάολο
Mas Sísifo foi lá, sabe como é que é, deu uma bufadinha assim de leve, pôs as mãos na rocha e a rolou por um milímetro a mais. Agora, sim.
Sísifo limpou as mãos no pano velho e surrado que escondia suas partes.
— Tem que usar hidratante! Senão dá calo.
Sísifo enxugou o suor da testa.
— Tem que usar protetor solar. Senão vai pegar câncer.
— Não, não, não. O que ele tem que fazer agora é se alongar.
E Sisifo lá, se perguntando τι στο διάολο?
— Assim é mole. Isso aí é pedra-pome. Quero ver fazer com uma bola de granito.
Nessa hora Sísifo pensou em responder que não era pedra-pome coisíssima nenhuma. Mas ele estava cansado e achou melhor deixar quieto.
— Também. Essa montanhazinha aí. Até eu — ouviu ele. Ou melhor, teve que ouvir ele.
Foi então que
Foi então que Sísifo, ao fim de mais um dia na Eternidade, soltou a pedra e, como sempre fazia, cruzou os braços para assistir ao espetáculo. A pedra rolava e ia destruindo tudo em seu caminho.
O barulho era qualquer coisa que não ensurdecedor, porque dizer que o barulho era ensurdecedor seria preguiça de minha parte. O barulho era ( ) atroante ou (x) estrepitoso.
Era lindo e divertido e emocionante, aquilo. Mas quem visse tinha que ser um pouco criança para perceber.
Por fim, a pedra pousou no lugar de sempre e a multidão aplaudiu.
— Quero ver como ele vai descer agora — disse alguém só por dizer, mas disse.
E no dia seguinte e no outro e no outro a multidão se reuniu para ensinar Sísifo a rolar a pedra montanha acima.
Prometeu
Enquanto isso, de um penhasco ali perto Prometeu, tendo o fígado eternamente comido pelos abutres, ria.
“Finalmente alguém com um destino pior do que o meu”, pensou ele.
VEJA TAMBÉM:








