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Polzonoff

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Teu badge no avatar não me engana: você só quer aceitação

  • 04/06/2020 17:04
O neoexistencialismo virtual transformou essa busca pela sensação de existir, que só se manifestaria no reconhecimento pelo outro, numa busca pela própria Salvação.
O neoexistencialismo virtual transformou essa busca pela sensação de existir, que só se manifestaria no reconhecimento pelo outro, numa busca pela própria Salvação.| Foto: Reprodução/ Wikipedia

No fim de semana, bateu um vento gelado e úmido de nostalgia e, de repente, me peguei ouvindo Mutantes – a iconoclasta banda que tanto me fez rir na adolescência. E lembrei, sem vergonha alguma do ridículo, que meus ouvidos contestadores se deliciavam com versos típicos da época, como “as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”. Era impossível ouvir “Panis et Circenses” sem abrir um sorrisinho presunçoso na cara espinhenta.

Até que bati com o dedinho na quina da cama e me dei conta: a geração maluquinha dos Mutantes venceu aquilo que chamam de “guerra cultural”. E, por isso, os contestadores d’antanho sofreram uma rasteira da história. Hoje em dia as pessoas na sala de jantar não estão mais ocupadas em nascer e morrer. Elas são ocupadas em garimpar aceitação.

E bota ocupada nisso! Veja os casos recentes da pandemia de coronavírus e do assassinato de George Floyd. As pessoas na sala de jantar, antes ocupadas em nascer e morrer (o que era visto como um pecado imperdoável pelos que pregam o surgimento de um homem superior, que pense em política o tempo todo), agora comem com o celular na mão, sem falar umas com as outras, buscando saciar, na multidão de anônimos ou semianônimos das redes sociais, uma insaciável sensação de pertencimento.

Por isso é que elas passam os dias dando opinião sobre tudo e qualquer coisa. Sobre assuntos gigantescos e ultracomplexos, diante dos quais a opinião delas é insignificante, e sobre assuntos que, há vinte ou trinta anos, não despertariam muito mais do que um bocejo ou uma risadinha de canto da boca. Sobre polêmicas reais a respeito das quais chamais se chegará a qualquer conclusão e sobre polêmicas falsas cuja relevância no tal “grande esquema das coisas” não vale nem o esforço de se tirar os olhos da comida, mas que hoje são vistas como uma oportunidade de existir – e de ser reconhecido como alguém inegavelmente virtuoso.

É o neoexistencialismo virtual que Sartre nunca ousou propor. Nele, a ideia de que o homem só existe quando reconhecido pelo outro ganhou outra dimensão. O neoexistencialismo virtual transformou essa busca pela sensação de existir, que só se manifestaria no reconhecimento pelo outro, numa busca pela própria Salvação. E é por isso que as pessoas na sala de jantar ignoram tanto o nascer quanto o morrer e se concentram nessa versão bufa do existir. Que, vale a pena repetir, só é possível com o reconhecimento alheio.

Desse caldeirão macabro é que brotam os exércitos de ativistas de sofá cuja causa não importa, desde que ela venha recoberta por uma fina camada de virtude facilmente identificável. Entre o nascer e o morrer, esses soldadinhos cheios de autoimportância marcham pelo universo virtual com suas frases feitas e os indefectíveis badges e hashtags. Eles não querem, de fato, mudar o mundo para melhor. Querem (na verdade, precisam) que você os reconheça com seres “do bem” a fim de que sintam que estão vivos, que existem.

Por isso essas pessoas na sala de jantar não tiram mais o olho do celular ou do computador. E escrevem manifestos recheados de palavras lindas e endossam isso e repudiam aquilo e ficam indignadas com cem mil pontos de exclamação!!! De certo modo, elas dão a vida (no sentido de abdicar deste tempo maravilhoso entre o nascer e o morrer)em troca dessa deliciosa aceitação, desse gozo de pertencimento, desse existir extasiante.

Não que elas pretendam se autoimolar como os monges budistas na TV de tubo da minha infância, claro. Elas tampouco se importam com a concretização ou não do objetivo. Ontem foi #MeToo, hoje é badge antifascista no avatar e amanhã é imagem toda preta no Instagram. O importante é comungar nessa versão perversa do “bem”. E de uma forma bem explícita (likes, coraçõezinhos, comentários do tipo “é isso, cara!”, “tamo junto”), para que fique bem claro que as pessoas na sala de jantar, para além do nascimento e aquém da morte, existiram de fato.

Sartre é filósofo da juventude. E ouvir Mutantes depois de certa idade pode ser, reconheço, sinal de demência. Coincidência que me leva a acreditar que essa necessidade patológica de aceitação, esse vício em ter seu nome associado à causa do momento, essa obsessão em se mostrar uma pessoa “do bem” tem algo de tão ridículo quanto um adolescente trocando de voz.

Quero crer que, lá no alto, sobre as nuvens que por ora derramam uma chuva fraca e fria, há um anjo todo tenso e preocupado com os destinos da Humanidade sendo consolado por outro anjo, mais experiente, que diz, ou melhor, profetiza:

— Vai passar. É só uma fase.

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Comentários [ 11 ]

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  • M

    Moreira Filho

    ± 81 dias

    Se sinalizar virtude é mais importante do que ter virtude, é porque já não mais acreditam que serão julgados, senão por seus iguais. Quando mata Deus, a sociedade morre junto. Por isso não, não vai passar. Não é só uma fase. E vai piorar.

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    • S

      Sheila machado

      ± 86 dias

      Parabéns Paulo! Tão instigante perceber que não sou a única a pensar dessa maneira...

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      • J

        José Tadeu Araujo

        ± 87 dias

        Onde foi parar o "falar é prata, escutar é ouro"? Hoje todo mundo fala e ninguém escuta. Lógico, que para certas coisas que a gente ouve seria melhor ser surdo! Vivemos num mundo de falsas polêmicas onde assuntos sem a menor relevância são discutidos ad nauseam com a maior seriedade. Prefiro um livro ruim do que um bom Facebook e quetais.

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        • M

          MARCUS VINICIUS TADEU PEREIRA

          ± 88 dias

          BOm artigo

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          • W

            WILSON ZETI

            ± 88 dias

            O mundo hoje parece com uma mesa de bar onde estão usuários de coca, todos têm uma opinião, sobre qualquer assunto, mas ninguém escuta o que o outro está falando, e todos falam ao mesmo tempo.

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            • W

              WILLIAM TANNURE

              ± 88 dias

              O like é a droga do século 21

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              • M

                Marcelo

                ± 88 dias

                O mundo gira em torno da aceitação. As propagandas comerciais buscam "likes", no relacionamento buscamos "likes" da nossa parceira (o), os empregados de uma empresa buscam "likes" todos os dias. Ainda bem que a inclusão e a possibilidade opinar sobre qualquer coisa que chegou no sofá da sua casa.

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                • F

                  Flávio José Cardozo Júnior

                  ± 88 dias

                  Excelentes observações. É uma pena que seja tão difícil dar respostas a esta situação, pois perdemos a condição de chegarmos à realidade. O diálogo se resume hoje a um interminável desfile de opiniões, não importando se, entre duas pessoas, uma tenha dedicado 50 anos de vida a estudos sérios, e a outra, com seus 20 anos de existência, jamais tenha lido qualquer coisa que preste.

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                  • M

                    Marcelo

                    ± 88 dias

                    Bobagem

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                    • F

                      Fabiano

                      ± 88 dias

                      Fantástico Paulo! Vontade de poder voltar a andar meio desligado e nem sentir os meus pés no chão ...

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                      • L

                        Lucio Araripe de Abreu e Lima

                        ± 89 dias

                        Mas rapaz, porque a gente escreve ? Porque os pintores pintam, os compositores fazem músicas, os escultores as estátuas, os poetas, Ah os poetas, porque conseguem ver as estrelas do céu no chão de um barraco coberto por uma folha de zinco enferrujada ? Essa , Paulo, é a nossa humanidade. Desde os tempos das cavernas. Há defeito nisso ? Agora, a internet e o smartfone pegou todo mundo de surpresa. De repente a gente se vê enredado nos 200 caracteres. Presidentes, ministros, líderes religiosos, o povo em geral, quem nunca leu um livro ( ai incluo presidentes )nem vai ler nunca, porque o cérebro dele não é capaz de processar mais de 200 caracteres...Mas, você gosta disso também...

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