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Polzonoff

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Joga sinistro

Vai, Brasa!

Comercial da Nike: "Vai, Brasa!" consegue ser ainda pior do que "Joga Sinistro". (Foto: Reprodução/ Nike)

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Escarafunchei os confins da memória, revirei tocos e pedras e trilhei caminhos que considerava para sempre fechados. E só não regressei a vidas passadas porque não acredito nisso. Tudo para tentar encontrar um vestigiozinho de memória que fosse de alguém assistindo a um jogo da Seleção e dizendo: “Vai, Brasa!”. Nike. Digo, nada.

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Para você que não sabe a que me refiro, o negócio é o seguinte: a Nike publicou um vídeo no qual uma moça explica as teorias e os conceitos por trás do uniforme que a Seleção Brasileira de futebol (lembram dela?) vai usar na Copa do Mundo. Depois de fazer menção ao amarelo “canary”, a moça diz que o tal do “Vai, Brasa!” é uma coisa que se escuta nos estádios e nas ruas. Não é. Claro que não é.

Consumo de nada

Ou seja, o vídeo é mais uma prova de que o mundo da publicidade, com seus meetings e benchmarks e performar daqui e brainstormar dali, não só está distante da realidade mais óbvia do mundo, como também tenta, por meio de teorias e conceitos artificiais, insuportavelmente artificiais, moldar o mundo das obviedades a fim de estimular o consumo de nada. Por apenas $499,99. Entendeu? Nem eu.

E é aí que está o meu ponto: a publicidade não tem responsabilidade ou correspondência com absolutamente nada que seja real e verdadeiro, ainda que etéreo. Com a cultura, por exemplo. Com a identidade nacional. Ou com o esporte em si. O único compromisso da publicidade é com o produto e a marca. Com o consumo vazio de sentido. Olha, se eu fosse dado ao exagero diria até que isso é demoníaco (devilish, em publicitês). Ainda bem que não sou.

Big picture

Mas e se eu lhe disser que o problema maior não é nem esse do “Vai, Brasa”? Afinal, trata-se de uma empresa de artigos esportivos que está shitting and walking para a Seleção, o que ela um dia representou e ainda mais para o que ela representa hoje em dia. E se eu lhe disser que o problema é que esse mesmo raciocínio meramente consumista é ressignificado de uma forma assertiva para mudar seu mindset político e dar um start nas KPIs eleitorais?

Traduzindo o que escrevi de modo a não fazer sentido nenhum: as mesmas teorias e conceitos dissociados da realidade e que nos revoltam no caso do “Vai, Brasa” ou do “Joga Sinistro” serão usados daqui a alguns meses para convencê-lo a votar no Fulano ou no Sicrano. Em outras palavras: você vai estar tão deep no game que vai rolar um miss total do big picture: o seu voto não vai para o candidate com o melhor roadmap de insights, e sim para o branding que entregou o go-to-market mais disruptive.

Nike e Adidas

Por isso é que o “Vai, Brasa” pode até parecer um episódio menor, indigno de reflexão e até caricato nesta nossa entressafra de manchetes escandalosas. Alguns me perguntarão se estou sem assunto e outros dirão que é tudo uma “cortina de fumaça”. Quando, na verdade, o “Vai, Brasa” é sintoma de uma artificialidade que permeia toda a nossa realidade, inclusive e principalmente a político-ideológica, que tanto engajamento gera.

Pode me xingar por ora. Mas salve este texto para lê-lo durante ou depois da campanha eleitoral em 2026. Você vai me dar razão. Porque daqui a alguns meses o mesmo truque manjado vai estar na TV, no Instagram, no X e no WhatsApp: conceitos descartáveis, feitos de um plástico especial que se adapta às circunstâncias; narrativas desconectadas da verdade e branding de alto nível oferecendo candidato como se fosse tênis. Ou camiseta oficial da Seleção.

Você não vai escolher o projeto; vai escolher a marca que entregou o storytelling mais bonito. E vai sair por aí esfregando a vitória na cara do outro. Como alguém que prefere a Nike faz com quem prefere a Adidas – e vice-versa.

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