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Wagner Moura, grande ator: mas ninguém me explicou por quê

WAGNER MOURA GRANDE ATOR
Toda a espontaneidade de Wagner Moura exemplificada numa foto. (Foto: EFE/EPA/CHRIS TORRES)

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Me xingaram de tudo e mais um pouco. De invejoso para baixo. De medíocre, o que provavelmente sou mesmo, mas luto para não ser. Mas ninguém até agora conseguiu (e nem ao menos tentou) responder seriamente à pergunta que fiz no texto anterior: por que Wagner Moura é considerado um grande ator? De onde surgiu esse grande e incontestável consenso nacional?

Tá. Ninguém é exagero de minha parte. Em meio às ofensas de praxe, distingui duas tênues linhas de raciocínio. A primeira, subjetivíssima. Para os adeptos desse argumento, Wagner Moura é um grande ator porque “gostei dele em ‘Tropa de Elite’”. Ou em “Narcos” ou em alguma novela. O filme, a série ou a novela, aqui, não importam, e sim o argumento frágil, mas compreensível em tempos infantilizados: Wagner Moura é bom porque eu gosto. E ai de quem discordar de mim!

Gostei/não gostei

Não quero começar outro parágrafo com “tá”, mas... tá. Gostou por quê? Aí a coisa fica um pouco mais complicada. E é normal que seja assim. Nas conversas à toa, nos bares da vida, estamos acostumados a dizer que gostamos ou não gostamos, a rir e zombar da opinião alheia, a fazer um brinde – e a mudar de assunto. Sem maiores justificativas. A vida não tem nota de rodapé. E ainda bem, porque senão a convivência entre amigos seria um porre. Sem trocadilho. Ou com trocadilho? Sei lá!

Mas de vez em quando, não sempre, é bom conseguir elaborar um pouco mais nossas preferências estéticas. Gostei, mas por quê? Foi por causa da dicção? Da capacidade de se expressar sem palavras, só com o olhar? Foi pela composição complexa, integral e original do personagem? Será que gostei mesmo da atuação ou do texto que me fez rir ou chorar? Ou então não gostei, mas novamente: por quê? A caracterização do personagem ficou artificial? Tem a ver com a atuação ou com o que o ator faz fora de cena? Porque, convenhamos, essa coisa de gostei/não gostei porque sim/porque não é coisa de criança.

Sucesso, sucesso, sucesso

O outro “argumento” que me deram (na verdade, esfregaram na minha cara) para justificar a qualidade do trabalho de Wagner Moura é o sucesso dele. As premiações. E, como não poderia deixar de ser, a fortuna. Interessante, isso. Repare que, para quem usa esse argumento, o sucesso não é consequência da qualidade; a qualidade é que é justificada pelo sucesso. Se ganhou prêmio, se é famoso, se tem dinheiro, é necessariamente bom, ótimo, excelente, extraordinário e genial. Nunca pode falar o “genial”.

Essa é uma discussão velha, um argumento que antigamente a gente ouvia e refutava às gargalhadas, de tão... primitivo. Mas talvez fosse o caso de ter levado a sério. Porque o argumento do sucesso ganhou força nas últimas décadas. Me lembro de rir quando me falavam que Paulo Coelho era bom porque era bestseller. O mesmo para Harry Potter. E agora percebo melancolicamente que, na falta de critérios mais elevados, e sobretudo na ausência de um público exigente, esse argumento do sucesso passou a ser aceito pela maioria. E não tem discussão!

Tá explicado agora?

Eu, de minha parte, continuo achando Wagner Moura um ator medíocre. Digo, igual a tantos outros. Nada especial. E, por mais que seja difícil acreditar nisso, minha avaliação não tem a ver com o que ele fala sobre política. Não tô nem aí pra isso. Meu problema é que nunca vi Wagner Moura encarnar um personagem realmente difícil. Um personagem ambíguo. Um personagem que extrapolasse a figura do ator. Nem mesmo o celebrado Capitão Nascimento, que me parece caricatural demais.

Nas atuações que vi de Wagner Moura, noto que faltam dois elemento essenciais a qualquer grande ator: generosidade e caridade. Isto é, falta reconhecer que o personagem é um ser diferente de quem o interpreta. Talvez até um personagem oposto e detestável, mas que merece e precisa ser compreendido em toda a sua complexidade insuportavelmente humana. Além disso, faltam humor e leveza. A mim me parece que Wagner Moura está sempre interpretando O Papel Mais Importante da História da Dramaturgia Universal. Tá explicado agora?

Dito isso, tomara que Wagner Moura ganhe o Oscar de Melhor Ator. Se isso vai deixar alguém feliz...

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