

Ser jornalista muitas vezes é sinônimo de ser inconveniente. Como no caso do sumiço do cantor Belchior. O cara deu uma bica em tudo e fez o que muita gente deseja: pegar a estrada e passar um período – por que não a vida – sem dar satisfação a ninguém, sem se preocupar em não chegar atrasado a compromissos chatos, em dar respostas mecânicas a coisas obrigatórias, sem ser contrariado naquilo em que realmente acredita.
Estava lá o Belchior, tranquilo no Uruguai, comendo um saboroso e suculento bife de chorizo, do tipo que deixa aquele bigodão tingindo de acaju todo lambuzado de gordura, quando começaram as especulações nos jornais brasileiros sobre qual seria seu paradeiro. Até o inglês The Guardian achou que tinha que meter a mão na cumbuca e lascou em seu site: Where is Belchior? Pronto, os jornalistas acabaram com o sossego do Belca.
Pelo menos um jornal foi criativo. O Aqui, de Recife (PE), prometeu um engradado de cerveja a quem o encontrasse. Aliás, eu se fosse o cantor só atenderia os leitores desse jornal. Com a condição expressa de que o caboclo que me achasse dividisse o engradado de cerveja comigo – de preferência aquelas garrafonas de um litro de Patricia bem gelada, a melhor cerveja uruguaia, uma das melhores da América Latina. Porque já que é para ser incomodado no meu período sabático, que seja ao menos na companhia de alguém interessante, numa conversa descontraída, regada a uma boa cervejinha. O que parece não ter acontecido no caso dos veículos de comunicação que conseguiram chegar a Belchior em seu retiro na cidadezinha de San Gregorio de Polanco: o Fantástico e o jornal uruguaio El País.
Mas como palavra dada é palavra certa, o Aqui cumpriu sua parte. Mandou na capa da edição de segunda-feira (31/08) o convite pra repórter da Globo Sonia Bridi dividir o engradado com a rapaziada lá da redação do jornal pernambucano. Resta saber se ela vai topar o convite ou se vai encarar o engradado sozinha… Independente disso, eis aí uma recompensa mais do que justa por um trabalho bem feito.
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Essa conversa toda de Uruguai e cerveja me lembra de quando eu, o André Gonçalves e o irmão dele, o Badas, viajamos até Buenos Aires em 2003. No dia em que saíriamos de Montevidéu para a capital argentina, o carro quebrou. Passou a tarde na oficina mecânica e por conta disso chegamos tarde a Colônia do Sacramento. O projeto era sair cedo de Montevidéu, passar a tarde em Colônia e no começo da noite pegar o barco que atravessa o Rio da Prata rumo a Buenos Aires. Mas a oficina mecânica atrasou, chegamos tarde a Colônia, perdemos o último barco daquele dia e o próximo sairia somente na madrugada do dia seguinte, às 4 da matina!
Chegamos a Colônia sem nenhum centavo de peso uruguaio e o comércio dessa simpática cidade histórica uruguaia, muito parecida com Antonina, não aceitava dólar. Abrimos o porta-malas do carro e tínhamos apenas uma garrafa de vodca e outra de Gatorade. Não era aquilo que iria matar nossa fome nas próximas 8 horas adentro da madrugada uruguaia. O jeito foi a gente se virar – não desse jeito que vocês estão pensando.
Circulando de madrugada pela cidade, encontramos uns meninos jogando pembolim. Não lembro de quem foi a ideia, mas resolvemos desafiá-los. A dinheiro! Era tudo ou nada: ganhar ou pagar sei lá de que forma. Ganhamos. E em troca pedimos para eles comprarem uns sanduíches e umas cervejas para nós. Não era cerveja Patricia. Era de uma marca bem pior. Mas para três rapazes latino-americanos literalmente sem dinheiro no bolso estava de bom tamanho.
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Quem quer um ponto de vista bacana do que vem rolando com o Belchior, sugiro a leitura dos dois últimos posts do blog Cartas Uruguaias, do jornalista e produtor musical Marcelo Damaso, camarada com quem troquei uns e-mails sobre futebol há uns longos e distantes cinco anos, quando eu colaborava para o site Abacaxi Atômico. Depois tive a grata surpresa de saber que o Damaso é amigo do meu amigo Leonardo Aquino – ambos de Belém do Pará. O que nos levou a bebericar todos juntos algumas cervejas em um boteco que não lembro o nome lá na capital paraense na minha visita à Amazônia Legal em 2006. Um detalhe interessante: ano passado o Damaso fez a mesma coisa que o Belchior. Largou o emprego e tudo mais e se mandou pra Montevidéu, onde ficou alguns meses escrevendo para seu antigo projeto de publicar o primeiro livro. Portanto, o cara não só sabe muito bem o que fala nos dois posts sobre o sumiço do cantor, como tenho certeza que assim como o Belchior vai já, já lançar algo de bom para nós. Boa sorte, Damaso!
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Pra terminar, a letra de uma canção do Belchior que eu curto, que volta e meia o Los Hermanos tocava em shows:
À Palo Seco
Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português
Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força desse destino
O tango argentino me vai bem melhor que o blues
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Eu quero que esse canto torto
Feito faca corte a carne de vocês



