
Texto originalmente publicado na edição impressa da Gazeta do Povo nesse sábado (12).

Kaká, pronto para jogar sua melhor Copa.
Meu caro Kaká, confesso que já tive uma certa implicância com você. Nunca acreditei muito em jogador bem-educado, que não se mete em confusão, que não tem um harém à sua volta e um escandalozinho para turbinar a imagem estigmatizada de boleiro.
Para mim, além de categoria, jogadores de futebol, especialmente meias e atacantes, tinham que ter malandragem, saber cair teatralmente para cavar uma falta, e, claro, chamar o marcador para dançar só pelo prazer de desmoralizá-lo.
Aí me aparece você e contradiz toda minha cultura futebolística, com um jogo objetivo, leal, altamente técnico, sem firulas, voltado exclusivamente ao gol. O que só me faz crer que, mesmo vindo de contusão, essa será a sua Copa.
Se alguém disser que não, lembre os passos de Ronaldo. Como o Fenômeno em 94, você foi campeão em 2002 ainda adolescente. Como o Fenômeno em 98, você tombou em 2006. E como o Fenômeno em 2002, você chega à África ainda se recuperando, mas pronto para dar a volta por cima.
De sua religiosidade, uma coisa sempre me chamou a atenção. Ao contrário de boa parte dos atletas de Cristo, você realmente cumpre os preceitos bíblicos. Casou-se virgem, dedica-se integralmente ao trabalho e à família, nunca é desleal com os adversários, é atencioso com todos… Um legítimo cristão!
Vi isso nos treinos aqui em Curitiba. No dia em que a polícia impediu o acesso da torcida ao CT do Atlético, você foi à frente dos jogadores saudar o povão.
Se a ideia foi sua, não sei. Mas sem dúvida você era o mais animado. Enquanto alguns de seus companheiros foram lá visivelmente contrariados, você não só ofereceu um sorriso sincero, como ainda furou o bloqueio policial para estender a mão ao público. “Isso só prova o comprometimento dele com o povo”, me resumiu bem o auxiliar administrativo Rafael Biano, um dos populares que lá estavam.
E já que estamos nessa conversa franca, meu caro Kaká, admito que, ao contrário de você, não sou um sujeito apegado à fé. Entretanto, nesses períodos de Copa, estranhamente rezo.
E em minhas preces, peço, sobretudo, por você. Peço para que Deus te ilumine e te faça jogar como se estivesse com o diabo no corpo, que infernize cada marcador que surja no seu encalço.
Nisso boto fé!
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