
“Uma Copa do Mundo ganha quem ama o futebol. Ganha quem tem mais intimidade com a bola. E nós somos amigos de infância de todas as bolas do mundo.”
Nilton Santos, maior lateral esquerdo da história, conhecido por Enciclopédia do Futebol, em relato ao livro Drama e Glória dos Bicampeões, de Armando Nogueira e Araújo Neto

Luís Fabiano, o Fabuloso, diz que ainda não se entendeu muito bem com a tal da Jabulani.
A cada jogador da seleção que reclama da bola da Copa me sinto decepcionado. Chororô de brasileiro com a pelota?! Tá de brincadeira, né, mermão!
Desde que o homem decidiu sair das cavernas pra bater uma pelada com a rapaziada neanderthal aqui pelas plagas do meu Brasil, ainda com fêmur de tiranossauro rex cumprindo o papel de trave e uma pedra lascada de bola (essa sim era difícil de controlar), aprendemos a dominar qualquer objeto com os pés. Pode vir laranja, bolinha de gude, bola de meia, bola de papel, esfera de rolamento, chave de casa, pedaço de tijolo, mamadeira do filho, bloco de concreto, bigorna: brasileiro que é brasileiro mata tudo isso na caixa e amacia no pé.
Mas aí vem essa boleirada do Dunga e destoa de toda a nossa tradição.
O Julio Cesar diz que a bola parece aquelas de supermercado. Ora, meu caro guarda-metas número um do mundo, não me venha dizer que o senhor não pegava até pensamento no futebolzinho da escola quando jogava com a famosíssima Dente de Leite, aquela redonda que, de tão leve, praticamente flutuava no ar. Se fazia isso com a Dente de Leite, por que não vai fazer o mesmo com a tal da Jabulani no Mundial?
Depois, vem o Felipe Melo dizer que a bola é ruim porque não é que nem mulher de malandro, que gosta de ser chutada. Ainda que a criatividade do nosso volante na comparação tenha sido diretamente proporcional à que ele não apresenta em campo, sou mais a avaliação do Didi – não o trapalhão, e sim o gênio bicampeão do mundo, caboclo que só inventou o chute mais perfeito de todos, a folha-seca, e nunca reclamou das bolas toscas dos anos 50 e 60. Dizia mestre Didi: “A bola é uma menina que tem que ser tratada com muito amor.”
Por último no balcão de reclamações, Luís Fabiano. E logo você, Fabuloso, artilheiro matador, cabra com faro de gol, vem me dizer que essa bola é sobrenatural… Por favor! Sobrenatural é você, que já teve a vida ameaçada tantas e tantas vezes por botinada de zagueiro ruim, agora ter medo daquela que pode te consagrar na história do futebol.
Mas pra não ser injusto e condenar sem argumentos a rapaziada que está se esforçando pra se adaptar à bola do Mundial nos treinos lá na África do Sul, resolvi eu mesmo ficar frente a frente da tão temida Jabulani. E admito: mesmo com meu altíssimo nível técnico, consegui fazer apenas três embaixadinhas com ela.
O que só comprova os reclames da turma do Dunga de que essa bola tem mesmo um defeito seríssimo: é redonda demais para os nossos padrões de se jogar futebol com qualquer coisa.
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Rapaziada, com esse texto começo uma série de crônicas sobre a Copa do Mundo da África do Sul. Além do Populares, todos os sábados será publicado um texto meu no caderno de Esportes da edição impressa da Gazeta do Povo. Acompanhem!



