• Carregando...
A atriz curitibana  Guta Stresser, que, por 14 anos, deu vida à personagem Bebel, de A Grande Família.
A atriz curitibana Guta Stresser, que, por 14 anos, deu vida à personagem Bebel, de A Grande Família.| Foto: Pino Gomes

Guta Stresser é uma curitibana raiz. Na vida real e na ficção. Encarnou durante dois anos a polaquinha de Dalton Trevisan na histórica montagem de Ademar Guerra, que marcou seu início profissional nos palcos. Mostrou a que veio ao dar vida à mais emblemática personagem do universo daltoniano. Anos depois, viveria a espevitada Bebel na segunda geração do seriado global A Grande Família ao lado dos monstros sagrados Marieta Severo e Marco Nanini, onde fazia par não muito romântico com Pedro Cardoso. Os dois viviam às turras na divertida trama até que um dia a vida imitou a arte e eles brigaram feio atrás das câmeras também. Assunto pra daqui a pouco.

A polaquinha do Abranches deu um salto e tanto na carreira entre um trabalho e outro. O papel lhe caiu nas mãos por indicação da atriz Regina Bastos, que a viu na peça Valsa Nº 6. O ator e diretor João Luiz Fiani relembra: “Guta apareceu na minha vida em 1992. Preparávamos a montagem de O Vampiro e a Polaquinha. O diretor Ademar Guerra queria uma atriz para ser a representação pura da polaquinha de Dalton, do imaginário do autor.

Testes foram feitos até que uma tarde apareceu a Maria Augusta Stresser. Parecia um furacão. Uma intensidade incrível, jovem e com muita energia em cena. Uma colega doce, amiga. Talento puro”. “Guta é destas atrizes que se costuma chamar de forças da natureza porque se incendeia em cena, porque não tem medo de embaralhar as energias do mundo da ficção e do mundo real. Porque tem o humor profundo e original típico de um nascido em Curitiba. Não à toa encarnou um personagem de Dalton Trevisan com tanta força e delicadeza, a Polaquinha. Com ela inscreveu seu nome no imaginário da cidade”, depõe o ator e diretor Guilherme Weber, tão curitibano quanto ela.

Guta, de 50 anos, pertence à grande família Stresser. Seu bisavô paterno foi o maestro e compositor Augusto Stresser, que dá nome a uma importante rua de Curitiba. Seu avô foi o jornalista Adherbal Stresser, fundador do Diário do Paraná e um dos braços direitos de Assis Chateaubriand por aqui. Seu pai era o advogado e jornalista Ronald Sanson Stresser. Guta nasceu no Hospital São Lucas, no Cabral. A família morava em uma chácara no Abranches, bairro colonizado por poloneses, o que viria a lhe conferir credencial para viver a polaquinha de Dalton com indiscutível DNA. Tem um irmão dois anos mais velho, Ronald Junior, produtor de rádio e tevê, e duas meia-irmãs temporonas, Manoela e Rafaela, ambas advogadas, filhas do segundo casamento de sua mãe, Diva Maria Farracha Labatut, e três sobrinhos. Como se vê, os Stresser e agregados são uma grande família também. A infância foi passada na chácara entre as rosas do jardim do avô Adherbal, que ela pouco conheceu. O caseiro Lourival a pegava pela mão para apreciar as roseiras, que a encantavam. Nas férias ia para Guaratuba e Camboriú. Já a adolescente Guta gostava de ir para a Ilha do Mel e frequentar os barzinhos da noite curitibana para curtir as bandas de rock locais. Era habituée do restaurante Île de France, que frequentava com os pais. Cursou balé no Teatro Guaíra, onde estrearia como atriz no mini-auditório no papel que lhe deu fama e carimbou seu passaporte para o Rio de Janeiro. A vida escolar foi quase toda no Colégio Positivo Champagnat. Vivia misturada à galera que batia ponto diariamente na vizinha Praça da Ucrânia. “Os mais velhos diziam que éramos marginaizinhos, a galera underground”, relembra divertida.

Já com a atriz arrombando-lhe as entranhas, não quis prosseguir nos estudos. Perguntava-se: para quê física, matemática? Mas fez dezenas de cursos extracurriculares ligados à arte. Pisou num palco pela primeira vez aos 13 anos no colégio da Rua Marcelino Champagnat dirigida por seu grande amigo Chico Penafiel. Perto dos 17 entrou para o grupo Turma do Beco, do premiado diretor Felipe Hirsch, carioca que começou a carreira em Curitiba e com quem depois engatou um namoro de dois anos. Até descobrir-se atriz, Guta fazia balé na escola de dança do Teatro Guaíra como toda boa garota de classe média curitibana. “Depois que entrou para o teatro ela não quis saber de mais nada na vida”, conta dona Diva.

Com 22 anos se mandou para o Rio com a cara e a coragem. A mãe entrega que Guta vendeu o carro, a televisão do quarto e tudo o que pode para juntar uma grana para começar a vida longe de casa. Lá trabalhou como recepcionista de teatro e entregadora de convites enquanto morava com amigos. Os pais tentaram dissuadi-la da ideia de ir embora. Em vão. E não é que ela tinha razão? Hoje Guta Stresser é um nome do primeiro escalão no mundo cênico brasileiro, com atuações elogiadas em tevê, teatro e cinema. O longa Nina, de 2004, em que fez a protagonista, foi sucesso de crítica. Depois de alguns anos no Rio, passou a conviver com diretores de peso como Domingos de Oliveira e Antônio Abujamra, o Abu, de quem tornou-se musa e primeira atriz da icônica companhia Fodidos Privilegiados. “Ele me deu muita moral”, reconhece. Guta diz que conquistou o diretor com sua atuação na peça O Casamento, de Nelson Rodrigues, na qual vivia a protagonista Glorinha, que ela trouxe para a edição de 30 anos do Festival de Curitiba em 2022. Há três anos, Guta vive um drama pessoal, longe das câmeras: a descoberta da esclerose múltipla, doença autoimune que afeta os sistemas imunológico e nervoso. Mas nada que lhe tire o ânimo e a alegria de viver e de fazer muitos planos, inclusive de voltar a morar em Curitiba, cujo clima favorece quem tem a doença, inimiga do calor. No ano passado, ela veio passar uma temporada no apartamento da mãe, no Centro de Curitiba. “Queria um pouco de colo e resgatar minhas raízes”, diz enquanto caminha por sua casa no Itanhangá, zona oeste do Rio, com o celular em modo vídeo em uma das mãos e um cigarro na outra. Apesar de separada do músico carioca André Paixão, ainda divide o teto com ele. São sócios em uma produtora. “Não é o melhor dos mundos, mas a gente não vive a guerra dos Roses”, ameniza. Pensou em ter filhos com ele, fez tratamento, mas não conseguiu engravidar. A maternidade frustrada foi suprida com o enteado de 21 anos, que ela conhece desde os sete. A vinda a Curitiba também teve um outro motivo. Guta foi co-candidata a deputada federal pelo Mandato da Cultura, uma iniciativa do PCdoB do Paraná. Afinal, entende, o papel do artista também é político, em cena ou não.

O diagnóstico a fez perceber que sua casa é aqui porque, segundo Guta, a esclerose múltipla não combina com o calor úmido do Rio. “Vivo no ar condicionado”, diz. Ela descobriu a doença quando começou a sentir formigamento nas extremidades do corpo. Hoje toma duas cápsulas ao dia de um medicamento de ponta fornecido pelo SUS e faz tratamento com uma neurologista, além de ressonância periódica. “Minha neurologista fala: fuja do stress, mas eu sou a Guta Stresser”, brinca.

Mesmo voltando a morar em Curitiba, ela pretende manter um pé no Rio. Guta credita à cidade seu sucesso na tevê. Foram 14 anos vivendo a Bebel, que considera seu cartão de visitas. Aliás, Guta teve um sério desentendimento com seu colega de elenco e marido na ficção Pedro Cardoso, que vivia o atrapalhado taxista Agostinho. Durante a gravação de uma externa do seriado, com um calor de rachar, Guta estava com uma falsa barriga de grávida, a pele coberta de látex e de salto alto. Depois de algumas repetições, a diretora pediu para regravar a cena. Guta reclamou e Pedro tomou as dores da diretora repreendendo a colega com grosserias e acusações, segundo ela. “Ele foi muito escroto. Devia ter dado uns tapas nele”, conta. Mesmo assim, continuaram a dividir o set de gravações por mais dois anos, mas a relação nunca mais foi a mesma, tanto que os roteiristas criaram uma separação para o casal para amenizar a situação. Guta diz que o episódio repercutiu em sua família. Hoje, ela pensa na saúde e em novos trabalhos. “Estou correndo atrás de produzir minhas peças, estamos voltando de um apagão cultural. Foi um momento péssimo, de demonização dos artistas”, resigna-se.

Como se vê, a polaquinha, a Bebel, a Glorinha, a Nina e tantas outras a quem Guta já deu vida continuam a todo vapor. Ah, sim: Guta Stresser é coxa-branca de carteirinha. Mais polaquinha, impossível.

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]