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Paulo Roberto Oliveira, a voz por trás do Momento Espírita, programa da Rádio Ouro Verde FM Easy de Curitiba.
Paulo Roberto Oliveira, a voz por trás do Momento Espírita, programa da Rádio Ouro Verde FM Easy de Curitiba.| Foto: Divulgação/Clube Curitibano

Nos últimos 50 anos a vida profissional de Paulo Roberto Oliveira foi passada entre estúdios de emissoras de rádio. Seu ganha pão é sua voz calma e grave, uma das mais conhecidas e admiradas do país. Mesmo aqueles que não professam a fé na doutrina Kardecista conseguem ficar indiferentes à locução segura e serena que emprega na leitura das mensagens do programa Momento Espírita, veiculado diariamente pela Rádio Ouro Verde FM Easy de Curitiba em dois horários, às 6h55 e às 18h55, e em cerca de 200 emissoras do país.

Para quem nunca ouviu, ele não faz o estilo apocalíptico de Cid Moreira lendo salmos da Bíblia. As mensagens são transmitidas sem a pretensão de doutrinar ninguém. Apenas para proporcionar um acalento aos ouvintes independentemente de suas crenças – ou até mesmo aos que não têm nenhuma. O programa rendeu até agora 34 CDs com as mensagens mais pedidas pelo público.

Ele adotou o espiritismo aos 18 anos por influência da mãe, Ana Guimarães Oliveira, católica convicta, mas que o incentivou a conhecer a doutrina de Allan Kardec. Sebastião Paraná, bisavô de sua mulher Lia Teresa Schleder Gonçalves de Oliveira, foi um dos fundadores da Federação Espírita do Paraná – que produz o quadro Momento Espírita – e do Clube Curitibano. Apesar de formado em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná em 1979, Paulo Roberto nunca deu um conselho a ninguém como tal. Seu consultório é o microfone da atração religiosa. Casado há 44 anos, tem cinco filhos homens (um deles já falecido) e cinco netos – três meninas e dois piás.

Voltemos um pouco no tempo. Catarinense de Lages, o rapaz recém-saído da adolescência conseguiu um emprego na rádio Ouro Verde AM, que tinha sua sede na Rua José Loureiro no Centro de Curitiba. Era dezembro de 1972. Chegou em Curitiba com 15 anos para trabalhar numa farmácia. Aos 18, já tinha um timbre de voz que chamava a atenção. Mas a vaga era para auxiliar de escritório. Sonhando com o microfone, aceitou-a e logo começou a treinar para ser locutor. Suas referências eram o paulista Humberto Marçal, da Rádio Bandeirantes, cuja voz era conhecida também pelos comerciais da Varig e dos cigarros Continental, “a preferência nacional”, além dos locutores da Rádio Jornal do Brasil do Rio de Janeiro, por onde passaram ases do microfone como Eliakim Araújo e Mario Seixas. Este último emprestava sua voz ao Batman e era conhecido pela frase “Versão brasileira Herbert Richers” dita antes de todo filme estrangeiro exibido nas tevês brasileiras na era pré-streaming e de quem é amigo até hoje.

O auxiliar de escritório não durou muito na função. Logo foi abduzido pelo encantador mundo do estúdio radiofônico, que só quem passou por ele sabe o quanto é bom. Virou locutor em 1974. Um de seus mestres na casa foi Carlos Roberto Bostelmann, dono de um vozeirão daqueles. Teve uma passagem fugaz pela TV Iguaçu como locutor de chamadas e depois como apresentador e aventurou-se na publicidade na agência Umuarama Propaganda, do banco Bamerindus. Chegou a participar da fundação da Associação Paranaense de Publicitários depois transformada em Sindicato das Agências de Propaganda do Paraná. Mas seu coração e suas cordas vocais eram definitivamente da Ouro Verde, já então dirigida pelo jovem João Lydio Seiler Bettega, que viria a ser seu patrão até o fim da vida. Os dois estabeleceram uma longeva e produtiva tabelinha. Dr. Bettega, como Paulo Roberto o chamava, morreu em julho deste ano aos 89 anos. Tinham uma sintonia fina no trato pessoal e profissional. Em 1990 Paulo Roberto passou a ocupar o cargo de superintendente não só da Ouro Verde como também da Caiobá FM e da Difusora AM do qual se desligou em julho para se dedicar a seu novo projeto: candidatar-se à presidência do Clube Curitibano, sua segunda paixão. Sua voz, no entanto, continua a ser ouvida no Momento Espírita.

No começo, a Ouro Verde era conhecida por tocar músicas orquestradas, de Frank Sinatra e do francês Franck Pourcel, o rei do easy listening. Em 1981, fez uma viagem a passeio a Nova York. Passava horas ouvindo as rádios da Big Apple. “As emissoras americanas têm o melhor modelo de rádio”, diz. Voltou várias vezes à cidade e foi também a São Francisco e Los Angeles, onde tomou conhecimento do modelo Easy de rádio. Em 1994 começou a adaptá-lo à Ouro Verde e ao estilo dos curitibanos. “Sempre me preocupei em fazer da Ouro Verde uma rádio com uma linguagem curitibana para o público adulto contemporâneo”, conta. A emissora foi a primeira do Brasil a adotar o modelo de rádio suave, que fez dela uma das campeãs de audiência na cidade, especialmente em consultórios médicos e odontológicos – hoje é primeira colocada no segmento e a terceira no geral. O modelo não se restringe às músicas. Passa pelo estilo de vozes sóbrias que se revezam nos microfones, na forma de apresentar as informações, temperadas com pílulas de otimismo, e principalmente nas vinhetas. Neste capítulo, uma delas chama a atenção pelo romantismo escancarado. Aquela que diz: “É tarde da noite, o café está passado... velho. Coisas loucas das quais falamos, as coisas loucas que fizemos. Quando a música toca baixo meu coração está tão alto, feliz! Está na hora de ir embora, mas simplesmente não posso dizer adeus. Então é mais uma canção... estou a caminho, toque uma que nunca acabe... toque uma bem longa... rock lento FM”. Não há como não imaginar a cena descrita. A ideia de gravar a vinheta, que virou marca da Ouro Verde nas últimas décadas, foi dele.

Com a saída da emissora, Paulo Roberto pode se dedicar de corpo e alma à candidatura à presidência do Curitibano, onde bate ponto diariamente como sócio há 42 anos e presidente do Conselho Deliberativo pela segunda vez. Virou conselheiro na gestão de Luiz Gonzaga da Motta Ribeiro e titular nas gestões de seus amigos Renato Ramalho e Joaquim Miró, que o apoiam na tentativa de ocupar a principal cadeira do tradicionalíssimo clube da elite curitibana. “Nunca esteve no meu radar ser candidato. Só sou porque um grupo de associados começou a me incentivar”, fala o experimentado radialista. Desde que adquiriu uma casa em Orlando, ele se divide entre Curitiba e a cidade americana, onde passa temporadas ao lado da família e, claro, ouvindo rádios. Aos 67 anos, Paulo Roberto está em paz com a vida. Cinquenta anos depois de sua chegada a Curitiba, ele poderá assumir a presidência de um dos clubes mais tradicionais da cidade. Se for vitorioso, seu discurso de posse será lido com a segurança e a entonação de um veterano dos microfones. De resto, é tarde da noite, o café está passado...velho.

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