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Raphaela Biesuz: paixão por aeronaves| Foto: Divulgação

Raphaela Biesuz tem medo de altura. Se estiver no alto de um arranha-céu e olhar para baixo suas mãos começam a suar. Mas lhe deem asas – ou melhor, hélices – e o medo desaparecerá por completo. Ela ganhará o céu feliz e segura feito um pássaro com milhares de horas de voo. E o chão pode ser o estonteante mar do Caribe, que ela já sobrevoou inúmeras vezes copilotando modernos helicópteros, ou a imponente floresta amazônica. A curitibana de 43 anos convive com o sobe e desce deles desde tenra idade. Pilotar, para ela, é uma herança paterna. Seu pai é o famoso comandante Eloy Biesuz, sócio-proprietário da Helisul Táxi Aéreo, que em outubro completa 50 anos de atividades como uma das mais importantes empresas de aviação do país. Fundada pela Varig, a empresa foi adquirida pela família Biesuz em 1979. Primogênita, Raphaela costuma brincar que nasceu dentro de um helicóptero.

A paixão pelos helicópteros surgiu ainda
na infância, 
por influência do pai.
A paixão pelos helicópteros surgiu ainda na infância, por influência do pai.| Arquivo Pessoal

Quando a família se mudou para Foz do Iguaçu, onde ficava a sede da Helisul, ela era bebê e com cinco anos começou a acompanhar o pai nos voos panorâmicos sobre as Cataratas. A mãe, Márcia Maria Seifert, e a irmã Mariana queriam distância de tudo que voasse. Raphaela adorava o ronco do motor e as pás girando sobre sua cabeça. “A Helisul era a extensão da minha casa”, diz a experiente piloto, que há 11 anos vive em Minneapolis, nos Estados Unidos, com os filhos Andrew, 5, e Isabella, 3. Uma vez por ano vem a Curitiba rever a família e os amigos. Seu ex-marido é um industrial americano. Além de Mariana, que é psicóloga, ela tem mais dois irmãos, Humberto e Pedro, filhos do segundo casamento do pai.

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Desde bebê ela acompanha o pai nos voos.| Arquivo Pessoal

Raphaela cresceu entre pilotos e mecânicos e circulava feliz no hangar da empresa da família no aeroporto do Bacacheri. A paixão por helicópteros só crescia e cada vez mais ela se via envolvida com aquele mundo, tanto que prestou vestibular para Ciências Aeronáuticas com ênfase em Administração, na Universidade Tuiuti, e fez MBA na Fundação Getúlio Vargas, em Curitiba. Nos dois cursos era a mais nova da sala. Quando falou para o pai que queria trabalhar na aviação ouviu como resposta que era um mundo muito masculino. Mas diante da insistência dela ele concordou e ela começou a procurar cursos fora do Brasil para se aperfeiçoar. “Peguei a transição do DAC (Departamento de Aviação Civil) para a ANAC”, diz rindo, insinuando já ser uma veterana da aviação. Fez mais de 20 deles, começando pelo de transporte aeromédico, uma de suas especialidades. “Sempre gostei muito de estudar, sempre fui interessada”, diz.

Mas o que ela mais queria mesmo era assumir o comando de um helicóptero. E isso não estava muito longe de acontecer. Apesar de seu pai ter criado um curso de pilotagem em Curitiba, foi nos Estados Unidos que ela aprendeu a pilotar, em 2011, um ano após deixar o Brasil. Sua matrícula foi expedida pelo Federal Aviation Administration (FAA). A estreia foi em um modelo R22, onde aprendeu o básico. Para contrabalançar, colocava uma caixa de ferramentas ao lado para atingir o peso mínimo necessário para que a aeronave pudesse levantar voo. Até ir embora do Brasil trabalhou com o pai, de quem fala com extrema admiração, na parte estratégica da empresa. Diz que aprendeu muito com ele.

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Raphaela, no colo do pai, Eloy, cresceu entre aeronaves.| Arquivo Pessoal

Com 11 anos, passou uma temporada como aluna interna em Cambridge, na Inglaterra. Quando pensou em desistir, Eloy não deixou e disse que ela tinha que seguir em frente. “Ele me passou muitos valores e me ensinou a ter responsabilidade e a controlar o ego”, relembra. Alguns pilotos costumam ter o ego nas alturas por comandar máquinas que seduzem muita gente. Da mãe, recebeu incentivos para aprender inglês, idioma essencial na aviação. Estruturou a Helisul First Class em São Paulo, de locação de aeronaves. Passou por vários setores da empresa original até conquistar seu maior sonho: assumir o comando de um helicóptero e ganhar o céu.

Uma vez nos Estados Unidos, matriculou-se em outro MBA, em Aviation Management, em Nova York. Um de seus professores era um ex-piloto de Donald Trump. “Aí comecei a sentir vontade de pilotar”, diz. Terminado o curso, procurou uma escola e bateu na porta atrás de informações. O homem que a atendeu a convidou para um voo noturno sobre Manhattan. Raphaela não sabia se prestava atenção nas explicações do piloto ou no que via pela janela. Ficou com a segunda opção. “Falei pra ele: assuma aí que quero ficar olhando a paisagem”, diverte-se.

Uma de suas experiências mais inesquecíveis desde que aprendeu a pilotar foram as várias viagens sobre as paradisíacas ilhas do Caribe, rota escolhida para trazer helicópteros dos Estados Unidos. Ela mostra alguns vídeos em que aparece como copiloto. Há também vídeos fazendo aulas. Em um deles, está com uma jovem instrutora. Sorridentes, as duas parecem fazer o pequeno aparelho bailar suavemente sobre uma praia em um dia ensolarado. Em outro, está com uma venda nos olhos para aprender como se voa sem visibilidade, apenas com os instrumentos. Só é permitido olhar para os aparelhos no painel e decifrar o que eles informam. “Aí, você tem que conversar com a aeronave”, diz. Haja autoconfiança. Na primeira viagem, ainda não pilotava. Nas demais veio como copiloto. Também já fez o caminho inverso. Garante nunca ter enfrentado situação de perigo ou de estresse a bordo das aeronaves que pilotou.

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Raphaela sobrevoando as ilhas do Caribe.| Arquivo Pessoal

Em 2013, estava noiva e concluiu que queria ficar nos Estados Unidos. Com a experiência na área administrativa adquirida no Brasil montou a Sky Solutions Direct, de venda de peças e serviços, baseada no aeroporto executivo da Flórida, à qual se dedica até hoje. No mesmo ano decidiu matricular-se num curso de piloto comercial e de IFL (Instrument Flight Rules). Foi a primeira com o sobrenome Biesuz a conquistar o certificado, que não era exigido no Brasil. Em 2019, seu pai entrou de sócio na empresa americana. Pilotar virou hobby. Foi também a solução encontrada para conciliar com a vida de mãe dedicada e coruja.

Apesar de toda a experiência adquirida, Raphaela nunca exerceu a função de piloto da empresa da família, embora a paixão pelo ofício tenha começado nos hangares da Helisul. Além de helicópteros, Raphaela também pilota outro aparelho, este sem motor nem hélices: o fogão. Apaixonada por gastronomia, fez estágio no extinto restaurante Boulevard, do chef Celso Freire, em Curitiba, e curso de gastronomia. Sua próxima meta é fazer aulas de yoga. Mas querem mesmo ver Raphaela Biesuz feliz e relaxada? É só ela estar na cabine de comando de um desses possantes que passam sobre nossas cabeças. Lá em cima, em vez de suar, suas delicadas mãos dominam com firmeza os mais sofisticados helicópteros que cruzam nossos céus por aí. Ave, Raphaela!!

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