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Garota sensacional
| Foto: Acervo pessoal

Se alguém a chamar de Sílvia, ela dará de ombros achando que é com outra pessoa. Mas se disserem Dig, a morena falante atenderá com um sorriso escancarado. Se vier acompanhado do Dutra, melhor ainda. Sílvia Camargo Dutra é Dig Dutra desde criancinha. O apelido foi dado pelo pai, o coronel do Exército e professor universitário José Evane Dutra, à caçula das três filhas. “Nasceu a Dig Dig. Foi assim que ele anunciou minha chegada ao mundo”, conta a atriz e comediante curitibana que escolheu sua cidade natal para comemorar – com um ano de atraso por causa da pandemia – seus 30 anos de carreira. “Sou muito bairrista. Queria comemorar com meus amigos e minha família”, diz. A comemoração foi com a estreia do monólogo “Inesgotável” no teatro da Cena Hum Academia Multiartes, de seu amigo de longa data e ex-professor George Sada, que a dirige no espetáculo. O texto, sobre uma mulher ressentida que faz da obsessão a razão da sua existência, foi escrito pela curitibana Alice Bacelar, aluna da academia, de apenas 17 anos. “Essa menina é um gênio”, elogia. Após curta temporada em Curitiba, a peça será apresentada em São Paulo e no Rio de Janeiro. Apesar da veia de comediante, Dig dá vida à Inês, uma stalker que persegue obsessivamente as pessoas pelas redes sociais. Para compor a personagem, além de desenvolver um trabalho preciso e detalhista de corpo e voz, Dig buscou assessoria psicológica. “Hoje em dia, com tamanha exposição nas redes sociais, é cada vez mais comum desenvolver uma obsessão ou ser vítima dela”, afirma. O tema foi escolhido por ela e George em conversas durante a pausa forçada pela pandemia sobre como seria a comemoração das três décadas de carreira iniciada aos 15 anos. Hoje, aos 46, Dig tem um currículo robusto, que inclui dezenas de novelas na Globo (a última delas A Força do Querer, em que fez um papel do início ao fim da trama), filmes, participações no seriado Malhação, peças de teatro e quase uma centena de comerciais.

A chegada ao Rio de Janeiro, em agosto de 2002, foi meio traumática. Dig ficou hospedada no amplo apartamento de um inglês casado com uma irmã de seu pai, em Copacabana. Era para ser algo temporário, até ela se adaptar à cidade. O tio anglo-saxão, já viúvo, a colocou para dormir na varanda do imóvel, mobiliada apenas com um colchão de solteiro. Como se não bastasse, ela dividia o espaço com os cachorros da casa. Não pelos cachorros, obviamente. Aliás, ela ama animais. Determinada a ir, ver e vencer, Dig transformou sua meia varanda em seu mundinho particular e não se abateu com o pouco caso do parente insensível. Usava as caixas de papelão que a mãe despachava com roupas e outros pertences como armários improvisados. Fez do blecaute velho e desgastado parede onde pregava fotos da família e dos amigos de Curitiba. Com medo que os pais a chamassem de volta, omitiu a humilhação. Até que um dia o tio e a filha viajaram e a deixaram sem comida. Dig ligou para a mãe e abriu o jogo. Dona Marilena foi resgatá-la imediatamente. Os pais alugaram uma quitinete em um conjugado na mesma Copacabana e Dig teve, enfim, um lugar digno pra chamar de seu. “Era meu reino, minha casinha Dig Dig”, recorda feliz. Não guardou mágoa do tio durão e até foi ao seu enterro. Depois de estabilizada financeiramente, alugou um apartamento maior e nos últimos anos chegou a morar em uma cobertura na Barra da Tijuca, comprada em sociedade com seu segundo marido. Mas o casamento durou enquanto ela estava contratada pela Globo e aparecia com frequência na telinha. Ao ser dispensada, acabou também a paixão dele. Sem emprego e recém-separada, bateu a depressão, mas Dig seguiu trabalhando com teatro enquanto reorganizava a vida. E tratou de curar suas dores até dar a volta por cima. Hoje está noiva e de casamento marcado com o engenheiro paulista Alberto Thiago Filho, de 68 anos, a quem atribui a cura definitiva de sua depressão. Quando deixou a Globo, passou um tempo em São Paulo, onde fez uma novela na Rede Bandeirantes e dividiu apartamento com a atriz Marjorie Estiano, sua conterrânea e amiga.

Quando se mandou para o Rio atrás do sonho de ser artista, teve o apoio irrestrito dos pais, apesar da pouca idade. Na festa que deu pelos seus 31 anos de carreira no dia 17 de setembro na Cena Hum, com direito à exibição de muitos vídeos de seus trabalhos na tevê e teatro e participações em programas como Faustão, Xuxa e Jô Soares, subiu ao palco e fez várias declarações de amor aos pais, sentados na primeira fila ao lado de suas irmãs Simone e Cíntia. “Sou o que sou porque sempre tive uma estrutura sólida, amorosa e acolhedora dentro de casa”, diz a filha do casal José e Marilena Dutra. Além dos pais, derramou-se em elogios e juras de amor ao noivo, também presente. Depois de dois casamentos “de véu e grinalda”, ela quer repetir tudo outra vez. Agora para sempre, garante. Os dois moram juntos há quatro anos na cidade paulista de Arujá. Quando morava em Curitiba frequentou a lendária Socipar comandada de 1972 a 2002 por dona Aliete Prosdócimo, prima de sua mãe, a quem chama de tia. O espaço, no Alto da XV, era uma espécie de escola de bons modos para as mocinhas da cidade de então, além de bem frequentado centro de estética e beleza das curitibanas chiques adeptas dos topetes. Lá, ela fez curso de modelo e manequim e depois de formada virou professora da escola. Como modelo da agência Staff, atuou em comerciais para marcas como O Boticário, Unimed, TIM e Banco Real e chegou a comandar um programa de vídeos musicais em uma emissora de tevê de Curitiba. Mas era no palco que ela queria estar. Seu primeiro curso de teatro foi em 1991 no Colégio Positivo. “Foi arrebatador. Já sabia que era isso que queria fazer na vida”, fala com entusiasmo. Em 1999, cursou Artes Cênicas na antiga Faculdade de Artes do Paraná e fez pós em cinema na Universidade Tuiuti.

| Acervo pessoal

Sua porta de entrada na Globo foi o humorístico Zorra Total, onde ficou seis anos interpretando a espevitada Maria da Abadia, dona do bordão “Sensacional”. O convite partiu do diretor Maurício Sherman, que a viu no teatro na peça Os Pândegos, escrita por ela e por seu parceiro de comédia Wagner Trindade. “Foi meu cartão de visitas no Rio para o pessoal me conhecer”, conta. No palco, a personagem era Suellen, uma criança psicopata que girava as tranças do cabelo e caiu no gosto do público. Na TV, virou Abadia Suellen. Também mostrou sua veia de comediante em A Diarista, Sob Nova Direção, A Grande Família, A Turma do Didi, Xuxa no Mundo da Imaginação, entre outros. Após deixar o Zorra Total, foi requisitada para as novelas. Passou por produções das 6, das 7 e das 8, entre elas Senhora do Destino, até chegar à A Força do Querer. Na novela de Gloria Perez, que abordou a questão das pessoas transgênero, Dig deu vida a uma garota de programa que era confidente do personagem Nonato, interpretado por Silvero Pereira, que escondia sua condição de gay do patrão machão vivido por Humberto Martins. No teatro, dividiu o palco com papas do humor como Chico Anysio e Dercy Gonçalves, que aos 100 anos participou do espetáculo de humor Pout Pour Rir em que Dig atuou. Outra atuação marcante foi na encenação da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, como Maria Madalena. Mesmo com talento para fazer os outros rirem, Dig considera-se mais atriz do que comediante. O tempo maior dedicado à comédia em todos esses anos de carreira se deve, segundo ela, ao fato de o Rio de Janeiro ser uma cidade com mais apelo para a comédia. “A comédia é um território no qual nem todos transitam e é um pouco desvalorizada. O drama dá mais status”, acredita. Foi só depois que deixou o humorístico global que começou a ser escalada para as novelas.

Durante sua permanência em Curitiba para os ensaios e a estreia de “Inesgotável”, hospedou-se na casa dos pais, na Rua Itupava. Aproveitou para fazer um curto caminho de volta à cidade que deixou 20 anos atrás em busca do sonho de ser atriz, e uma atriz reconhecida. Entre os seus lugares favoritos na cidade está o bucólico Santuário de Schoenstatt, no Campo Comprido. Ela tem em sua casa uma réplica da cruz do lugar. Dig Dutra é mesmo inesgotável. Sensacional!

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