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Húbris é o termo que os gregos cunharam para definir um comportamento no qual uma pessoa é dominada a tal ponto pela arrogância que, ante uma adversidade que pode lhe impor uma derrota humilhante, leva-a a transgredir limites e a atropelar quem se ponha em seu caminho. Nas antigas tragédias, era uma afronta punida pelos deuses. Em Roma, poderosos que a abraçaram sucumbiram em desonra.
Nos últimos dias, acossado pela revelação de suas relações com Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes tem feito de tudo para escapar de uma investigação. Tem motivos de sobra para temer. Afinal, ninguém conhece melhor do que ele a capacidade da máquina estatal de triturar reputações e destruir vidas — ainda que inocentes.
Flagrado em conversas nada republicanas com o banqueiro que pagou uma fortuna à sua família, o ministro nunca deu qualquer explicação. Em vez disso, partiu para o ataque. Desmentido após negar, em março, que tenha recebido recados indecentes de Vorcaro, Moraes voltou suas armas contra André Mendonça, acusando-o de “abuso de autoridade” por identificar que era a ele que o banqueiro recorria para escapar de investigações sobre as fraudes bilionárias do Banco Master.
Moraes sabe o que fez. Poderia aceitar a investigação e, exercendo seu direito de defesa, provar inocência. Mas optou pela busca desesperada pela anulação do caso. Neste fim de semana, empenhou-se em vasculhar os arquivos sigilosos da operação Compliance Zero, exigindo acesso irrestrito a apurações em andamento não relacionadas a seu caso, e ao conteúdo lacrado do celular de Vorcaro — material que nem Mendonça, o relator da investigação, julgou oportuno abrir neste momento.
O objetivo é claro: armar-se contra tudo e todos. Moraes sabe que uma investigação séria, com as devidas quebras de sigilo, traria à luz detalhes do contrato de R$ 131 milhões celebrado com sua família. Revelaria suas respostas quando o banqueiro lhe pediu intervenção para conter a Polícia Federal ou consultar se era hora de fugir.
A investigação exigirá que o banqueiro detalhe se Moraes abriu portas junto ao comando do Banco Central, à direção da Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República para sustar as apurações sobre suas falcatruas financeiras.
É indispensável que Moraes tenha assegurados o contraditório e a ampla defesa — garantias das quais seus alvos afirmam ter sido privados. Já a movimentação ostensiva para juntar munição contra outros envolvidos cumpre um papel claro: mandar o recado de que, se cair, não cairá sozinho. É a cartada final de quem tenta sobreviver.
Resta saber se a maioria do plenário do Supremo Tribunal Federal cederá ou exercerá nêmesis, a resposta corretiva para recolocar em ordem a instituição.

Jornalista de política especializado na cobertura de Justiça. Desde 2009 em Brasília, observa de perto como se move o poder, o direito e a imprensa. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




