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A vitória da direita nas eleições, especialmente na composição do Senado e da Câmara dos Deputados, revela algo mais do que o crescimento de um grupo político específico. Revela o sucesso de uma nova direita brasileira, formada por correntes diferentes, nem sempre alinhadas entre si, mas capazes de convergir em torno de um projeto comum de oposição ao atual estado de coisas.
A esquerda e parte da imprensa preferem interpretar esse resultado como um simples avanço do bolsonarismo. Não é uma leitura inteiramente equivocada, mas é uma leitura incompleta. E, por isso mesmo, incapaz de compreender o fenômeno que se desenha diante de seus olhos.
O bolsonarismo existe, é uma força política relevante e conseguiu permanecer no centro do processo de renovação da direita brasileira. O desempenho eleitoral de seus principais representantes não permite ignorar essa realidade. O fato de Jair Bolsonaro ter conseguido eleger todos os familiares que disputaram a eleição é sintomático. Também o é a eleição de grandes apoiadores do ex-presidente, que mantêm sua influência política mesmo diante da perseguição política sofrida e da incomunicabilidade.
Seria um erro, portanto, imaginar que a direita possa prescindir do bolsonarismo ou que ele esteja condenado a desaparecer. Ele tem bases sociais, identidade política, lideranças e capacidade de mobilização. É parte importante da direita que saiu vitoriosa das urnas.
A política não exige que todos os integrantes de uma coalizão compartilhem a mesma visão de mundo. Exige que sejam capazes de encontrar objetivos comuns e construir uma alternativa viável para alcançá-los
Mas a nova direita é mais do que o bolsonarismo.
Há uma parcela expressiva de eleitores e representantes políticos que se identifica com a chamada “direita não bolsonarista”. São pessoas que defendem ideias liberais ou conservadoras, que rejeitam o governo do PT e que desejam uma mudança de rumo para o país, mas não necessariamente se reconhecem na liderança ou no estilo político de Bolsonaro. Essa diferença não é um detalhe. Ela se manifesta nas escolhas eleitorais, na composição das bancadas e nas lideranças que vêm conquistando espaço.
Há ainda um terceiro grupo, talvez menos organizado, mas eleitoralmente decisivo: o dos indignados com a situação do Brasil. São eleitores preocupados com a segurança pública, o custo de vida, a carga tributária, a corrupção, a qualidade dos serviços públicos e a deterioração das instituições. Muitos deles não se definem como conservadores, liberais ou nem sequer como eleitores de direita. Podem ter votado na oposição por circunstância, por rejeição ao governo ou simplesmente por entender que o país precisa mudar.
Não são a mesma coisa. E não precisam ser.
A política não exige que todos os integrantes de uma coalizão compartilhem a mesma visão de mundo. Exige que sejam capazes de encontrar objetivos comuns e construir uma alternativa viável para alcançá-los.
É nesse contexto que deve ser compreendida a concentração de votos em Flávio Bolsonaro já no primeiro turno. Como explicar que uma candidatura associada tão diretamente ao bolsonarismo consiga reunir eleitores que não se identificam integralmente com ele?
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A resposta está na capacidade de agregar. Flávio Bolsonaro se beneficiou de sua própria personalidade política, mas também de uma estratégia de campanha que soube ampliar o alcance de sua candidatura. O posicionamento adotado, a agenda apresentada e a comunicação escolhida permitiram que ele se tornasse uma opção confortável também para setores da direita que não são propriamente bolsonaristas.
Essa foi uma decisão politicamente acertada. Em vez de exigir que todos os eleitores se convertessem ao bolsonarismo, a campanha construiu espaço para que diferentes correntes pudessem apoiar a mesma candidatura sem precisar renunciar às próprias identidades.
O efeito apareceu na antecipação de movimentos eleitorais que, em outras circunstâncias, talvez só se concretizassem no segundo turno. Parte dos votos que poderiam migrar de Romeu Zema e Ronaldo Caiado no segundo turno já se transferiu, em boa medida, no primeiro turno. A candidatura deixou de falar apenas com o eleitor que já estava convencido e passou a oferecer uma alternativa também aos que procuravam um caminho para derrotar o governo.
Essa diferença é fundamental. Uma coisa é mobilizar os próprios apoiadores. Outra, muito mais difícil, é conquistar a confiança de quem não pertence ao seu grupo.
Em vez de exigir que todos os eleitores se convertessem ao bolsonarismo, a campanha de Flávio construiu espaço para que diferentes correntes pudessem apoiá-lo sem renunciar às próprias identidades
O resultado representa, portanto, um sinal de maturidade de uma direita que já venceu eleições e já perdeu eleições e começa a compreender melhor as exigências da disputa pelo poder. Maturidade, diga-se de passagem, muito necessária.
A formação de coalizões é uma das habilidades essenciais da política. Não basta ter razão, reunir seguidores ou mobilizar militantes. É preciso reconhecer que a sociedade é plural, que os eleitores têm prioridades diferentes e que uma maioria se constrói pela capacidade de reunir, não pela exigência de uniformidade.
É um equívoco confundir unidade com identidade. Erra quem pensa que para estar do mesmo lado é necessário pensar da mesma maneira, adotar os mesmos símbolos e reconhecer a mesma liderança. Essa lógica pode ser útil para consolidar uma militância, mas é insuficiente para construir maiorias eleitorais duradouras.
A nova direita parece estar aprendendo a diferença.
Isso não significa que suas divergências tenham desaparecido ou que a coalizão esteja livre de conflitos. Ao contrário: as diferenças continuarão existindo, e serão testadas quando chegar a hora de transformar votos em decisões, bancadas em maiorias e promessas em políticas públicas. Uma coalizão eleitoral não é, por si só, um programa de governo. Tampouco garante que seus integrantes serão capazes de trabalhar juntos depois da eleição.
Erra quem pensa que para estar do mesmo lado é necessário pensar da mesma maneira, adotar os mesmos símbolos e reconhecer a mesma liderança
Mas é um começo. E um começo importante.
A esquerda e parte da mídia, entretanto, insistem em reduzir o fenômeno ao avanço do bolsonarismo. É mais confortável interpretar a política brasileira como um embate entre dois personagens ou duas torcidas do que reconhecer a emergência de uma coalizão heterogênea, com diferentes lideranças, motivações e projetos, unida pela disposição de mudar o rumo do país.
O bolsonarismo avançou, sim. Mas não avançou sozinho. E a direita não precisa ser uníssona para ser politicamente vitoriosa. Enquanto seus adversários não compreenderem essa distinção, continuarão confundindo uma parte com o todo, e se surpreendendo com o resultado das urnas.
A nova direita brasileira não é uma unanimidade. É uma convergência. E talvez seja justamente aí que resida sua força.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Ricardo Gomes é CEO do Instituto Millenium. Foi vice-prefeito de Porto Alegre (2021-2024), onde também cumpriu mandado como vereador e foi secretário de Desenvolvimento Econômico. Foi presidente do Instituto de Estudos Empresarias (IEE) e da Rede Liberal da América Latina. É advogado e consultor. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



