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Ricardo Gomes

Ricardo Gomes

Midterms

Trump perdeu. O que vai acontecer nos Estados Unidos?

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Trump perdeu a maioria em ambas as casas do Congresso nas eleições de 3 de novembro. (Foto: Annabelle Gordon/EFE)

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A esquerda americana – o Partido Democrata – venceu as chamadas midterms, as eleições do meio do mandato de Donald Trump. Foi uma dura derrota, mas um resultado que já era antecipado pelas pesquisas (que por lá também andam em baixa, especialmente depois da última eleição presidencial). Trump tinha apenas 38% de popularidade, um recorde negativo.

Por que o Partido Republicano de Donald Trump perdeu, e o que vai acontecer?

Alguns elementos explicam o revés. O primeiro é a guerra no Irã. Trump chegou ao poder dizendo ser contra a invasão do Iraque, e defendendo uma guinada em direção ao isolacionismo. Depois, atacou o Irã em um conflito que já se estende no tempo e que levou ao aumento do preço dos combustíveis.

Isso leva à segunda razão: o preço dos combustíveis e o custo de vida. 89% das pessoas apontavam que esse era um fator crucial na sua decisão de voto. A famosa afirmação “é a economia, estúpido!” define as eleições. O impacto das tarifas de importação no custo de vida dos americanos também teve efeitos negativos na eleição.

Mesmo tendo ganho as eleições presidenciais com uma vantagem estrondosa, em apenas dois anos a popularidade de Trump caiu muito

Soma-se a isso o exagero no combate à imigração ilegal. Ainda que esse seja um dos temas mais importantes em sua reeleição à presidência, a opinião pública parece ser favorável à interrupção do fluxo de novos imigrantes, mas não tão disposta a assimilar as imagens de captura de ilegais que o ICE (a polícia anti-imigração) tem proporcionado.

Algumas medidas foram também bastante impopulares, como o emprego das Forças Armadas no policiamento de Washington, DC. Os negócios de Trump também foram escrutinados, e seus ganhos com criptomoedas e negócios com diferentes países levantaram suspeitas de corrupção e uso pessoal do poder para enriquecimento (mesmo para o já bilionário presidente americano).

Por fim, um certo espalhafato de Trump ajudou a oposição. Uma luta de MMA no jardim da Casa Branca, a construção de um Salão de Banquetes anexo à casa presidencial, um novo avião, a substituição da foto de Joe Biden na galeria de ex-presidentes, tudo isso produziu um ruído talvez desnecessário.

Mesmo tendo ganho as eleições presidenciais com uma vantagem estrondosa, em apenas dois anos a popularidade de Trump caiu muito, e essa derrota eleitoral precisa ser compreendida.

Nenhuma análise é completa, entretanto, sem que se olhe para o vencedor. O Partido Democrata dominará o Congresso em suas duas casas, a Câmara de Representantes e o Senado. Não será a primeira vez que os democratas terão maioria, mas será a primeira vez que este Partido Democrata terá.

A esquerda americana mudou profundamente, tomada pelo radicalismo tão semeado pela Escola de Frankfurt e seus seguidores. Depois de décadas propondo a radicalização das teóricas raciais, feministas, trans e assim sucessivamente, é impossível reconhecer nos democratas de hoje o partido de John Kennedy.

A vanguarda dessa vitória está na esquerda radical, que, embora não componha a maioria dos eleitos, certamente tem mais exposição na mídia. É o caso de Abdul El Sayed, senador muçulmano eleito por Michigan. A socialista Alexandra Ocasio Cortez, conhecida como AOC, foi reeleita em Nova York. Cinco membros do movimento “Socialistas Democráticos da América” foram eleitos: Darializa Avila Chevalier e Claire Valdez por Nova York, Melat Kiros pelo Colorado, Donavan McKinney pelo Michigan, e Chris Rabb pela Pennsylvania.

É um momento de profundo questionamento dos valores que fizeram da América o que ela é hoje. A denúncia da meritocracia, a rejeição da base moral cristã, a condenação do capitalismo e a satanização do homem branco heterossexual cristão estão abalando profundamente a sociedade americana – e, com isso, a política dos Estados Unidos e do mundo todo.

Não será a primeira vez que os democratas terão maioria na Câmara e no Senado, mas será a primeira vez que este Partido Democrata, mais radical, terá

A presidência dos Estados Unidos da América é o cargo político mais importante do planeta. Não é à toa que discutimos a influência de Trump na política brasileira. Trump, ao passo em que tem a coragem de enfrentar a China no tabuleiro internacional, também cometeu erros importantes na luta política.

A eleição passa pelos erros de Trump, mas passa pelo perigosíssimo sinal que vem da esquerda radical americana.

Durante a campanha presidencial de 1964, Ronald Reagan contou, em um discurso defendendo a candidatura de Barry Goldwater, uma história que me vem à cabeça agora. Ele narrou:

“Não faz muito tempo, dois amigos meus conversavam com um refugiado cubano, um empresário que havia fugido de Castro. Em meio ao seu relato, um dos meus amigos virou-se para o outro e disse: ‘Não sabemos a sorte que temos’. O cubano interrompeu a conversa e respondeu: ‘Sorte de vocês? Eu tinha para onde fugir’. E, com essa única frase, ele nos contou toda a história. Se perdermos a liberdade aqui, não haverá nenhum outro lugar para onde fugir. Este é o último bastião da liberdade na Terra.”

A eleição passa pelos erros de Trump, mas passa pelo perigosíssimo sinal que vem da esquerda radical americana

A ascensão da esquerda radical americana coloca em risco os fundamentos morais, culturais, econômicos e, por que não, civilizacionais que construíram os Estados Unidos e fizeram dele o colosso que é.

E o futuro? O sinal político é muito ruim para J.D. Vance, o vice-presidente de Trump que daria continuidade à linha mais “Maga” (“Make America Great Again”) do Partido Republicano. Cresce Marco Rubio, filho de cubanos que tem boa ressonância entre o eleitorado latino, mas que está absorvido na guerra no Irã. Os republicanos terão uma prévia muito interessante para definir quem indicarão para tentar suceder Trump.

Do lado democrata, uma escolha também se apresenta: apresentar um candidato moderado para capturar o centro, ou um radical que satisfaça a militância progressista.

De todo modo, a eleição de 2028 será uma das mais importantes da história recente nos EUA – e dela depende a geopolítica mundial, com efeitos aqui no Brasil. Dessa eleição depende a continuidade ou não da república mais duradoura da modernidade, que acaba de completar 250 anos, e que, enquanto relembra sua fundação, deve se preocupar com seu futuro.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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