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As décadas de 1970 e 1980 foram, para mim, a era do tédio. Quando eu era criança e adolescente, o mundo era analógico. Não existiam computadores, internet ou telefone celular.
Naquela época, no Brasil, não havia nem TV a cabo. Os aparelhos de videocassete ainda não estavam ao alcance da classe média. Se você era criança ou adolescente naqueles anos, suas opções de lazer eletrônico eram meia dúzia de canais da TV aberta, e só.
Ah, mas o mundo real era mais divertido naquele tempo, dirão alguns.
Não para mim.
Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável
Em 1973, minha família se mudou de uma casa em Salvador - onde jogávamos bola no quintal e vivíamos na rua, brincando e andando de bicicleta - para um apartamento, não muito grande, em Botafogo. Nosso principal lazer passou a ser a TV.
Meu pai amava ler. Herdei sua curiosidade; leio de tudo e me interesso por quase todos os assuntos (a exceção é o futebol). Isso me colocou em posição de vantagem em vários momentos da vida. Mas, naquele tempo, não havia como satisfazer de forma adequada minha curiosidade. Pertencíamos àquela parte da classe média que luta para não empobrecer; depois de pagar as contas e a escola das quatro crianças, sobrava pouco dinheiro. Não era possível comprar muitos livros.
Depois de voltar da escola e fazer o dever de casa, eu passava o tempo assistindo séries americanas, já antigas, na TV preto e branco do meu quarto.
Não era possível imaginar que um dia existiriam canais de streaming com um cardápio infinito. Filmes a gente via no cinema, exceto em ocasiões especiais, quando a TV aberta resolvia passar algum filme bom, geralmente nas noites de sexta ou sábado.
Muita gente deve ter vivido uma infância diferente. Mas a minha vida, a partir dos onze anos - e até que a adolescência acabasse, por volta dos dezessete - foi assim: horas infinitas de tédio e uma curiosidade sobre o mundo que nunca foi saciada.
Penso nisso todas as vezes em que vejo pessoas reclamando da internet e das redes sociais.
Acho curioso quando dizem que, por causa das redes, vivemos em uma bolha. Basta uma reflexão rápida para perceber que sempre vivemos em uma bolha. A bolha atual é resultado dos algoritmos das redes sociais. Antes, a bolha era criada pela grande mídia. Se agora vivemos nas bolhas do Facebook ou do X, antes vivíamos na bolha da Rede Globo. Nunca houve um tempo em que o cidadão médio vivesse fora da bolha porque, para sair da bolha, é preciso um esforço individual incomum em qualquer época.
Na verdade, se existe uma época na qual é possível sair da bolha, esse tempo é agora - basta a decisão de buscar o entendimento do mundo fora do discurso dominante. Basta usara internet e as redes de forma consciente. Essa é uma opção ao alcance de qualquer um. Quando eu era jovem, essa opção não existia. As fontes de informação eram os grandes jornais, um canal de TV e, talvez, uma ou duas revistas semanais.
Fim da história.
A segunda afirmação que me espanta é a de que vivemos com excesso de informações, e que isso tira o foco das crianças e adolescentes e impacta negativamente seu futuro. Não vou discutir esse prognóstico, mas ofereço uma consideração: a criança e o adolescente que fui um dia, se pudessem, escolheriam um milhão de vezes viver nos dias de hoje ao invés de viver na era do tédio das décadas de 1970 e 1980.
Imagine-se entrando em uma máquina do tempo, voltando a 1976 e dizendo àquele menino que eu fui - e que assistia, pela décima vez, o mesmo episódio de um seriado tolo sobre um golfinho amestrado - que ele poderia, com o apertar de um botão, aprender sobre qualquer assunto, sem custo, ou que poderia ler praticamente qualquer livro e ver qualquer filme que desejasse. O que você acha que o menino diria?
A curiosidade daquele menino permanece em mim. Escrevo esse artigo em uma das três telas do meu computador. Entre um texto e outro, vejo o vídeo de um coral cantando De Spiritu Sancto, música composta por uma abadessa no ano 1150; depois leio um artigo sobre o economista Eugen von Böhm-Bawerk e sua crítica à teoria marxista da exploração. Leio outro artigo sobre o segundo mandato de Trump. O autor cita um livro que me interessa; eu acho o PDF na rede e em segundos já o estou lendo. Entre uma tarefa e outra, assisto a excelentes produções de vídeo sobre o mercado imobiliário em Las Vegas, montanhismo de grandes altitudes, desenvolvimentos da física quântica e um trecho do debate entre o Arcebispo de Canterbury e o biólogo evolucionário e ateísta Richard Dawkins. Posso ler a qualquer momento textos de Gustavo Maultasch e Roberto Rachewsky, dois dos pensadores mais originais do país. Antes que o dia acabe, eu provavelmente terei explorado uma variedade de assuntos maior do que aquele garoto de 1976 teria visto em um ano inteiro.
Alarmistas dizem que as redes enlouquecerão as crianças; é a mesma coisa que diziam, quando eu era criança, sobre a televisão. É possível que 90% do conteúdo das redes seja lixo, mas os 10% que sobram têm valor inestimável.
A época em que vivemos é maravilhosa. A combinação de internet, telefone celular e redes sociais operou o milagre de colocar em nossas mãos, instantaneamente, o conhecimento e a arte da humanidade. A abundância de informações é uma bênção pela qual devemos agradecer todos os dias.
É assim que se sente o menino de 1976.




