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Roberto Motta

Roberto Motta

Trabalho

O que ninguém explica sobre a escala 6×1

O Brasil não precisa de uma proposta de redução da jornada de trabalho. O Brasil precisa de uma proposta de aumento de produtividade e, consequentemente, da renda. (Foto: Albari Rosa/Arquivo Gazeta do Povo)

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Você gostaria de trabalhar menos, mas ganhando o mesmo salário? A maioria responderia que sim. Aparentemente, essa é a pergunta que está sendo feita quando o governo e alguns políticos propõem o fim da escala 6x1. Mas essa discussão sofre de um grande mal: desonestidade – porque, na verdade, a verdadeira pergunta sendo feita é essa: você prefere trabalhar menos pelo mesmo salario ou você prefere ganhar mais dinheiro trabalhando a mesma coisa?

Minha aposta é que a maioria das pessoas escolheria a segunda opção: ganhar um salário maior com a mesma carga de trabalho, porque isso representa uma chance concreta de melhorar de vida. Mas eu posso estar errado – e aqui está a vantagem de analisar essa questão de forma honesta: cada trabalhador deveria dar a sua própria resposta a essa questão. Não há nenhuma razão para que todos sejam obrigados a fazer a mesma escolha.

O Brasil não precisa de uma proposta de redução da jornada de trabalho. O Brasil precisa de uma proposta de aumento de produtividade e, consequentemente, da renda

Alguns escolherão mais tempo livre, enquanto outros sempre preferem uma melhor remuneração. Essa é a vantagem da liberdade – e liberdade é o oposto da política adotada pelo Estado brasileiro, e defendida pelo atual governo, de interferir o máximo possível na relação entre empregador e empregado.

É provável que alguém esteja perguntando: mas de onde vem essa segunda opção, a de ganhar mais dinheiro trabalhando o mesmo tempo? Ela vem do aumento de produtividade, que é a única forma sustentável de uma nação ter aumento real de salários. É fácil de entender. Vamos imaginar a situação de um técnico que conserte aparelhos de ar-condicionado. Hoje ele conserta dois aparelhos por dia, porque não teve um bom treinamento e as ferramentas que a empresa fornece são ruins. Se ele passa a consertar quatro aparelhos por dia – dobrando a produtividade – a empresa tem condições de dar a ele um aumento de salário, que passa a ganhar mais trabalhando o mesmo número de horas. Se o patrão não der aumento, outra empresa vai contratá-lo – afinal, quem não quer um técnico que conserta o dobro do número de aparelhos?

É exatamente isso o que acontece em economias mais desenvolvidas. O aumento de produtividade gera aumento de renda e de riqueza.

O Brasil não precisa de uma proposta de redução da jornada de trabalho. O Brasil precisa de uma proposta de aumento de produtividade e, consequentemente, da renda. O brasileiro não precisa trabalhar menos. Ele precisa ter uma vida melhor. Mas a mentalidade populista e paternalista do Estado empurra a nação em outra direção. Essa é uma das razões do atraso brasileiro.

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Em 1980, o Brasil tinha a mesma produtividade que a Coreia do Sul. Hoje, a produtividade da Coreia do Sul é três vezes maior que a do Brasil. Em 1990, o PIB do Brasil era igual ao da China. Hoje, o PIB da China é 10 vezes maior que o do Brasil.

O brasileiro não quer trabalhar menos horas e continuar vivendo uma vida insegura e precária. O brasileiro quer viver melhor, com mais conforto, mais saúde, mais segurança e independência, sem depender de esmolas do Estado.

Cada trabalhador deveria decidir o que deseja para a sua vida. Essa decisão não pode ser tomada pelo Estado, ou por um grupo de políticos ou ideólogos. Talvez tenha existido um tempo em que o trabalhador brasileiro era um tolo que precisava da tutela do Estado para tomar decisões sobre sua vida. Esse tempo ficou longe; hoje o trabalhador é mais bem informado do que a média dos políticos, e tem condições e vontade de decidir seu destino.

Há uma forma simples de mostrar como a tutela do Estado atrapalha o trabalhador. Basta lembrar isso: o brasileiro abraça imediatamente qualquer oportunidade de viver nos EUA. Mas lá não existem “direitos trabalhistas” como conhecemos aqui: não há “carteira assinada”, FGTS, aviso prévio, obrigação legal de conceder 30 dias de férias, multa por demissão sem justa causa ou mesmo justiça do trabalho. Nos EUA, se quiser, você pode trabalhar todos os dias, ou apenas um dia por semana – isso é um acordo feito entre você e o empregador. Ainda assim – ou exatamente por causa disso - o padrão de vida do americano é nove vezes maior que o do Brasil.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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