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Roberto Motta

Roberto Motta

Princípios

O que não te contaram sobre esquerda e direita: duas ideias essenciais

As ideias socialistas conquistaram hegemonia e, em muitos casos, passaram a ser consideradas parte do senso comum. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Para entender o que são direita e esquerda você só precisa conhecer duas ideias essenciais.

Se o sujeito é socialista, ele não é bem-intencionado. É impossível ser as duas coisas ao mesmo tempo. Essa impossibilidade vem da própria definição de socialismo.

Socialismo não é um sentimento fofo de solidariedade em relação ao mundo. Socialismo não é “querer que todo mundo tenha o que eu tenho”, como eu leio com frequência nas redes sociais. Esse é o entendimento do jovem desinformado, ou até de pessoas mais velhas cuja disposição para entender a realidade nunca ficou maior que sua ingenuidade. Como já disse alguém: aquele que não foi socialista aos 20 anos não tem coração, mas quem continua socialista aos 30 anos não tem cérebro.

Socialismo é uma doutrina política bem definida, que se baseia em dois princípios. Todo socialista acredita nesses princípios – mesmo que seja implicitamente – e trabalha por sua implantação. Esse ponto é importante: não há exceções. Não há um sabor de socialismo que não esteja baseado nesses princípios.

É claro que existem pessoas que se declaram “socialistas” sem saber o que isso significa e sem ter conhecimento da doutrina. Mas desconhecimento das premissas de uma ideologia não torna a pessoa menos responsável por suas consequências. Não é preciso conhecer a doutrina socialista para trabalhar pelo socialismo, da mesma forma que não é preciso conhecer o código penal para cometer um crime.

É mesmo provável que a maioria das pessoas que se declaram socialistas não conheça a doutrina. Rodney Stark explicou que a maioria escolhe uma religião por pressão social e não por preferir determinada doutrina. A mesma coisa acontece com ideologias. O sujeito se torna socialista porque, no mundo de hoje, isso é considerado sinônimo de modernidade.

O segundo princípio socialista é ter o Estado como controlador de todas as relações econômicas, políticas e sociais. Tudo precisa ser definido, planejado e regulado pelo Estado; ao cidadão cabe apenas obedecer

Quais são os dois princípios do socialismo?

O primeiro é o fim da propriedade privada. Socialistas acham que os bens materiais devem ser distribuídos de uma forma mais justa do que a forma atual. Quem vai fazer essa redistribuição é o Estado socialista. Ele vai retirar dinheiro e bens de alguns e dar a outros. É óbvio que, para isso, é preciso violar o direito à propriedade. Essa proposição é colocada de forma explícita na doutrina marxista. Marx diz que o estágio final e mais evoluído do socialismo será o comunismo, onde todos os bens serão possuídos de forma coletiva.

O segundo princípio socialista é ter o Estado como controlador de todas as relações econômicas, políticas e sociais. Tudo precisa ser definido, planejado e regulado pelo Estado; ao cidadão cabe apenas obedecer. Em todos os sistemas socialistas – teóricos e práticos – os direitos individuais são subordinados às necessidades e determinações do Estado.

Ninguém tem direito de dizer o que quer, mas apenas aquilo que o Estado acha que é razoável. Ninguém tem direito de propriedade sobre suas coisas; toda a propriedade pode ser confiscada pelo Estado se ele achar que sua função social não está sendo cumprida.

O socialismo tem vários sabores: socialismo utópico, marxismo, comunismo e progressismo. Não há nenhuma diferença relevante entre essas correntes; elas são essencialmente a mesma coisa. Há também uma doutrina chamada de socialismo fabiano, que defende a transição gradual para o sistema socialista através de reformas sociais, em vez de revolução. Essa é a origem do que hoje se chama de social-democracia.

O social-democrata quer a mesma coisa que o comunista; a diferença está apenas nos meios. Aposto que você conhece algum social-democrata que não sabe disso.

É possível também identificar as duas ideias essenciais do pensamento de direita.

A primeira é a crença no livre mercado. Ao contrário do que muita gente pensa, isso não significa anarquia ou ausência de regulamentação. Um livre mercado significa que os indivíduos e empresas têm a maior liberdade possível para comercializar e trocar produtos e serviços, com interferência mínima do Estado.

Quando eu falo sobre isso, algumas pessoas dizem que não querem um mercado livre, mas um mercado justo. Mas o que seria um mercado justo? Provavelmente um mercado onde seja possível comprar bens e serviços a preços razoáveis. Quando o mercado é livre e se permite a concorrência, os preços são os menores possíveis.

A outra característica de um mercado justo é a ausência de fraude. Para isso é preciso que existam regras e penalidades para aqueles que não as cumprem. Não há contradição entre a existência de regras e a liberdade do mercado, desde que as regras tenham como objetivo garantir a lisura e a segurança das transações.

A outra ideia essencial da direita é a limitação do poder do Estado como proteção dos direitos individuais. Os principais instrumentos para isso são a tripartição de poderes, os sistemas de freios e contrapesos e as constituições. Os poderes do Estado devem ser limitados ao cumprimento de suas funções essenciais: educação básica, saúde básica, defesa, justiça e combate ao crime.

Para a direita, a justificativa da existência do Estado é a proteção dos direitos individuais. Quando ele falha nessa função – principalmente quando se torna, ele próprio, um instrumento de violação desses direitos – o Estado perde a legitimidade e a justificativa para existir.

As ideias socialistas conquistaram hegemonia e, em muitos casos, passaram a ser consideradas parte do senso comum. Por isso não é raro encontrar pessoas, inclusive políticos, que se dizem de direita e anticomunistas e, ainda assim, adotam e defendem ideias, projetos e políticas baseados nos princípios socialistas.

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