Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Roberto Motta

Roberto Motta

Mundo

Trump contra o mundo: verdade ou narrativa?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante participação no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça (Foto: GIAN EHRENZELLER/EFE/EPA)

Ouça este conteúdo

Narrativas ideológicas dificultam ao cidadão separar fato de ficção. A mídia progressista promove aliados e demoniza adversários, e Donald Trump é um de seus alvos preferenciais. Trump tem se dedicado a desafiar a lógica e a previsibilidade da geopolítica.

Analistas interpretam a Doutrina Trump como reconhecimento de uma realidade camuflada pela narrativa. Progressistas apresentam alianças entre países como se fossem compromissos emocionais. Líderes europeus enxergavam o relacionamento com os EUA como uma amizade incondicional. Um dos lados – a América – deveria se sacrificar incessantemente enquanto o outro lado – a Europa – tinha o direito de se sentir moralmente superior.

Essa fantasia não resiste ao contato com a realidade.

O que Trump está dizendo aos países aliados já foi dito por outros presidentes americanos. Mas Trump diz em voz alta o que outros sussurravam: se uma nação aliada quer contar com a proteção dos EUA, ela precisa arcar com uma parte da tarefa. E mais: ela não pode adotar políticas que sejam prejudiciais aos EUA.

Como vencedores da Segunda Guerra Mundial, os EUA poderiam ter transformado a Europa em uma colônia. Ao invés disso, criaram o Plano Marshall para financiar a reconstrução da Europa e a Otan para protegê-la.

Japão, Alemanha e Itália, derrotados a um custo altíssimo, foram reconstruídos como democracias e são protegidos até hoje pelo escudo nuclear americano. A economia alemã voltou a dominar a Europa. Em 1995, antes de entrar em crise, a economia japonesa chegou a valer o equivalente a 70% da economia dos EUA. O Ocidente só permaneceu livre porque foi protegido pelos Estados Unidos. Foi essa proteção que derrubou o Muro de Berlim e dissolveu a União Soviética.

O que Trump está dizendo aos países aliados já foi dito por outros presidentes americanos. Mas Trump diz em voz alta o que outros sussurravam

Desde 1949 os EUA gastaram trilhões de dólares financiando a defesa da Europa, arcando com até 70% dos gastos da Otan.

A paz criada pela proteção americana permitiu que as nações europeias investissem em outros setores. Os estados de bem-estar social europeus oferecem assistência médica gratuita, boas aposentadorias e inúmeros benefícios desconhecidos nos Estados Unidos. A ironia é que isso só se tornou viável porque os americanos estavam pagando pela segurança. O estado de bem-estar social europeu foi subsidiado pelo contribuinte americano. A ironia fica mais amarga porque as elites progressistas americanas elegeram o socialismo europeu como exemplo de progresso moral e social.

Mas o socialismo europeu só funciona porque os EUA pagam o custo das armas que defendem a Europa.

O PIB da União Europeia é de 20 trilhões de dólares enquanto o PIB da Rússia é de 2,5 trilhões de dólares. Ainda assim, a Europa não consegue sustentar uma guerra convencional contra a Rússia sem a ajuda americana.

A Otan foi formada em 1949 por países que ainda se lembravam do custo de uma guerra. Seus criadores compreendiam que a paz se preserva pela força e não por sentimentalismo.

Esses líderes não existem mais.

VEJA TAMBÉM:

Muitos países da Otan reduziram gastos militares, abriram fronteiras de forma descontrolada e adotaram políticas internas – baseadas no conceito suicida de “multiculturalismo” radical - que enfraqueceram a coesão nacional. Como se isso não fosse suficiente, países europeus demonstram hostilidade aos interesses dos EUA – através, por exemplo, de ações “regulatórias” contra empresas americanas de tecnologia – e rejeitam os fundamentos das democracias liberais, como liberdade de expressão.

Ainda assim, esses países continuam terceirizando sua segurança quase totalmente para os Estados Unidos. Isso não é parceria. Isso é dependência cínica.

Enquanto a Europa ocidental vive essa fantasia, Rússia e China operam no mundo real, como ficou demonstrado pela invasão da Ucrânia.

A China está montando a maior marinha do mundo. Rússia e China desenvolveram mísseis hipersônicos que as defesas atuais têm dificuldade de bloquear. A detecção de ataques explica o interesse de Trump na Groenlândia: mísseis balísticos exigem detecção precoce e infraestrutura de interceptação permanente. Sistemas assim não podem ser construídos com segurança em território estrangeiro.

Os países ocidentais têm uma escolha a fazer. Eles podem repactuar a aliança com os americanos, assumindo responsabilidade por sua defesa e realinhando a política interna para refletir os interesses do hemisfério ocidental. Ou podem continuar vivendo um presente fantasioso às custas de um futuro cada vez mais inseguro, ao mesmo tempo em que abrem a porta de casa para receber, de braços abertos, os agentes de sua destruição.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.