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Beto Preto
Secretário estadual da Saúde, Beto Preto, em entrevista coletiva| Foto: Reprodução

Mesmo com a tendência de queda dos números da Covid-19, a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) não pretende desabilitar leitos exclusivos para pacientes contaminados pelo corononavírus nos próximos meses. Em entrevista à Gazeta do Povo, o secretário Beto Preto disse que quer a estrutura do estado preparada caso a taxa de transmissão volte a subir, como aconteceu na segunda onda, causada por novas variantes do vírus.

O secretário também comentou a abertura da CPI da Pandemia no Senado e classificou como "dilema" ainda ter que lidar com uma parte significativa da população que ignora as orientações sobre o distanciamento social, renega o uso de máscara ou se apega a medicamentos sem eficácia comprovada.

Beto Preto conversou com a coluna na última terça-feira (4), após a entrevista coletiva em que foi anunciada a retomada gradual das aulas presenciais na rede estadual de ensino.

Gazeta do Povo: O Senado iniciou os trabalhos da CPI da Pandemia, que busca achar responsáveis pelo estrago que a Covid-19 causou no país. Em sua opinião, há responsáveis?

Beto Preto: Responder isso é muito delicado. Temos que buscar atender as pessoas. Como a gente está investido no cargo, e na gestão do SUS do estado, nossa função, diante do governo, é buscar soluções. Isso nós fizemos o tempo todo, mesmo nos momentos mais agudos. Agora, ao longo do tempo, tivemos que viver esse dilema: dilema de ter que mostrar que não existe nada, efetivamente, que possa indicar cloroquina ou hidroxicloroquina [como tratamento]. Esses medicamentos que foram indicados ao longo do tempo não têm nenhuma efetividade. É o dilema, o negacionismo que se coloca. O comando do processo é de cima para baixo e por isso que a gente espera a união de forças neste momento. Não podemos ter ruptura entre nós, temos que olhar para o mesmo lado. E acho que o ministro Marcelo Queiroga tem tentado isso de maneira mais clara: precisamos de todos os cuidados, precisamos da vacina e precisamos conviver também. É isso que ele tem pregado. Mas gostaríamos de ter uma convivência mais tranquila e que não tivéssemos tantas perdas como já tivemos aqui no Paraná ao longo do tempo. Estamos no século 21, a ciência avançou muito, temos que tomar cuidado com tudo isso. O que vai resolver a vida das pessoas é a vacina. A vacina tem sido efetiva em diminuir danos, em reduzir os casos graves.

Mais do que tudo, nós defendemos a vida, e, aqui no Paraná, ao longo do tempo, levamos, com a concordância do governador Ratinho Junior, tudo isso de maneira muito equilibrada: sem extremismos, sem ideologia, mas com metodologia. E, mesmo com o número de perdas de vidas humanas que registramos até hoje, temos um saldo de ações muito importantes. Se não tivéssemos tomados algumas medidas ao longo do tempo, certamente, estaríamos com uma situação ainda mais crítica. Mas é um esforço diário, a pandemia não acabou e a gente precisa dialogar, informar todos os dias, para reforçar a necessidade das medidas de proteção, dos cuidados.

Ano passado, quando a curva da pandemia começou a baixar, o estado foi desabilitando leitos exclusivos para a Covid-19, até para atender às outras demandas da saúde. Mas veio a segunda onda, numa velocidade de crescimento tão grande que fez com que, até reabilitar aqueles leitos e criar novos, o Paraná passasse por momentos de esgotamento do sistema, com pessoas morrendo na fila de espera por um leito. Os números começaram a baixar, o estado pretende desabilitar leitos?

Nossa ideia é manter todos esses leitos. Claro que existem alguns municípios, geralmente os maiores, que têm a gestão plena de todo o seu território. Estamos fazendo um apelo aos prefeitos para que possamos manter todos os leitos. Neste momento, ainda temos 93% de ocupação, mas devemos passar por um momento de diminuição do número de infectados e, por consequência, reflete num número menor de internamentos. Mas o fato é que continuamos perdendo vidas, continuamos lutando todos os dias, com equipes de saúde trabalhando por um ano sem parar, com a crise dos medicamentos ainda sendo resolvida. Mas, depois de um ano e dois meses de pandemia, precisamos começar a conviver com tudo isso. O comércio e a indústria estão funcionando, a educação, que foi a maior prejudicada do período precisa voltar. Vamos passar por um momento de revisão dos métodos e das ações, mas a educação, devagar, também tem que retornar à sua normalidade.

O estado conclui, nesta semana, a vacinação dos idosos, o grupo mais vulnerável às complicações causadas pelo coronavírus. Já há algum dado, dentro da Secretaria, sobre o impacto desta vacinação nos casos e óbitos de pessoas com mais de 60 anos?

Trabalhamos muito com as instituições de longa permanência. Os idosos residentes e os trabalhadores dessas instituições foram os primeiros a receber a vacina. Nós estamos monitorando todas essas instituições e mantendo o rastreio laboratorial. E pudemos observar que algumas instituições até registraram casos de contaminação pós-vacinação, após as duas doses, mas os casos foram leves: sintomas leves. Isso é mostrar que, de fato, a vacina é eficaz. O idoso até é infectado, mas o vírus se manifesta de uma forma que o idoso sequer precisa de internamento médico.

Em setembro do ano passado a avaliação era de que já havíamos atingido o pico e os números passariam a baixar constantemente. Mas veio a segunda onda, com a nova cepa, ainda mais forte e que, agora, começa a estabilizar. Neste momento, ainda mais com o início da vacinação, dá para dizer que o pior já passou ou ainda é possível esperar uma terceira onda, no inverno?

Existe um ditado nas faculdades de Medicina e a gente está vendo bem o valor deste ditado “nem nunca, e nem sempre”. Estamos no meio de uma pandemia, é algo muito novo e, todo dia, a gente aprende um pouco a conviver com isso. O fato de termos diversas variantes circulando demonstra que o quadro clínico, a evolução da doença, pode ser diverso. Neste momento, temos a possibilidade de uma descida da onda, que está se mostrando sustentada, mas não quer dizer que, ali na frente, não teremos mais problemas. O fato é que, depois de um ano e dois meses, com uma gama de vacinas acontecendo, vacinas chegando, não na velocidade que gostaríamos, mas chegando, mais do que nunca, estamos tendo que aprender a conviver com a doença. E é esse fator que nos move a tentar voltar com as aulas, com protocolos de segurança, vacinação aos trabalhadores em educação paulatinamente acontecendo, tudo isso dentro do contexto social que quer a volta das aulas. Nossa próxima fronteira, nos próximos dias, é dialogar efetivamente sobre a questão da Covid-19 na gestante. Está aparecendo casos de interrupção da gravidez no terceiro trimestre, partos prematuros e até aumentando os números de mortalidade materna. Reduzimos nossa mortalidade infantil para baixo de 10 e, de repente, temos esse fator intangível, que vamos ter que combater com a opinião pública, com a ajuda da imprensa e com as equipes trabalhando na assistência lá na base. Também estamos chegando ao segundo dia das mães. São esses momentos de grandes confraternizações, que são inocentes, que acabam colaborando para o aumento da circulação do vírus. Aprendemos muito neste ano. Sacrifícios inúmeros foram colocados. Sacrifícios de ordem social. A vulnerabilidade social e a fome voltaram a assolar o país e o estado. Todas as nossas estratégias precisam se voltar aos mais vulneráveis. E sacrifício no aprender das crianças, que foram frontalmente atingidas. Vamos ter que passar e, por isso, o caráter desse momento não é apenas o de saúde, mas o caráter humanista também.

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