
Um tanto quanto aflito, o professor Afronsius aproximou-se da cerca (viva) que separa o seu apê da mansão da Vila Piroquinha. Buscava ajuda de Natureza Morta.
– Você, por acaso, teria uma calçadeira para me emprestar?
– Tenho. Só não tenho cigarro Luiz XV ou Liberty, que deixaram de ser fabricados.
– É que eu perdi a minha. E estou cansado de recorrer à colher de sopa para calçar o sapato – justificou-se o professor, dispensando depois o cigarro. De qualquer marca. “Deixei de fumar. Hoje só masco fumo de corda”.
Coisas de ontem e anteontem
Enquanto procurava a calçadeira, o solitário da Vila Piroquinha mergulhou em lucubrações, ou elucubrações, como prefere.
– Isso aqui está parecendo o depósito do Cidadão Kane – só falta encontrar o trenó e decifrar o enigma Rosebud – brincou consigo mesmo enquanto remexia as quinquilharias.
– Há coisas ultrapassadas, coisas que caíram em desuso. Coisas de ontem. E outras coisas, mais antigas ainda, que são de anteontem. Servem e são úteis até hoje, no entanto.
De volta à cerca viva, Natureza passou a calçadeira para o vizinho. Aproveitando, ofereceu, caso ele precisasse, uma namoradeira – de balanço.
– Coisa fina.
– Não duvido. Mas aí eu teria de vestir fraque e colete – devolveu o professor Afronsius.
– E desenterrar as polainas…
– Colocar um vistoso dente de ouro, passar aqua velva no rosto após a barba, feita com navalha reluzente graças à pedra pome, que está guardada na gaveta ao lado das pastilhas de anil…
– Aí, trocaria a namoradeira pela presilha, para prender a barra da calça e sair de bicicleta.
– Monark, certamente.
Finalizando o papo, concordaram que, em desuso mesmo, sem espaço, está a honestidade. E invocaram Sócrates:
– Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.
ENQUANTO ISSO…




