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Contestado, 100 anos

Apontado como “o maior conflito armado do país no século XX”, o Contestado (1912-1916) foi um banho de sangue. Nem mesmo por isso, no entanto, é devidamente conhecido e estudado. Daí, igualmente, a importância do livro “Revelando o Contestado”, projeto coordenado pelos jornalistas Jorge Narozniak e Ulisses Iarochinski, lançado no fim do ano passado, pela Imprensa Oficial do Paraná.
Veio se somar ao número de outubro da Revista de História da Biblioteca Nacional, que dedicou o seu dossiê ao “Massacre e progresso”. No livro, inclusive, há uma fantástica sequência de fotos da época dos combates, trabalho de Claro Jansson, que utilizava daguerreótipo (negativo em vidro), processo criado pelo francês Louis Daguerre, em 1837.

Um continente chamado 5ª Comarca

A então 5ª Comarca de São Paulo se estendia até o Rio Uruguai, fazendo divisa com a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Criada a Província do Paraná (1853), foram mantidos os limites. Como mostra o livro, com preciosas reproduções de mapas, as terras a Leste e a faixa litorânea formavam a Província de Santa Catarina.

“O Colosso” e a devastação

A Brazil Lumber and Colonization Company foi criada como empresa subsidiária da Brazil Railway Company, que construiria a ferrovia São Paulo-Rio Grande, cortando região com vastos pinheirais, imbuia, cedros e outras madeiras, além de erva-mate. A tal colonização ficou na promessa.
Além dos 15 quilômetros de terras de cada lado ao longo da ferrovia, que ganhou por doação do governo, a Lumber, madeireira do norte-americano Percival Farquhar, adquiriu 180 mil hectares para desmatamento. Já era o “Sindicato Farquhar”, especializado em adquirir concessões públicas na América Latina.
– Uma área equivalente ao Parque Nacional do Iguaçu, como destaca o livro “Revelando o Contestado”.

Tempos modernos

A serraria da Lumber contava com equipamentos altamente sofisticados. Todo o processo de produção era mecanizado. “O Colosso”, como era chamado o complexo, dispunha até locomotivas a vapor e outras “maravilhas”. Basta ver que, pelos métodos tradicionais, a serraria necessitaria de 5 mil trabalhadores, mas era tocada por apenas 800 empregados.
Em ritmo alucinante, em Três Barras chegou a estocar 8 milhões de pés cúbicos de madeira. Tudo ia ao chão. Árvores com 30 metros de altura e mais de 1 metro de diâmetro. Imbuias com 10 metros de circunferência.

Eucaliptos australianos

Na construção da ferrovia Madeira-Mamoré (Rondônia), a Brazil Railway chegou a importar milhares de dormentes de eucalipto da Austrália. Agora, no Contestado, a serraria contava até com um ramal ferroviário na ligação com o porto de São Francisco.
A ferrovia São Paulo-Rio Grande virou o centro dos confrontos entre sertanejos, fanáticos, fazendeiros, capangas, policiais do Paraná, Santa Catarina e, por fim, envolveu até o Exército.
Nesse cenário, o fotógrafo Olavo Jansson, contratado pela Lumber, foi muito além de sua missão: documentou a empreitada e tudo o que ocorria paralelamente. É dele, por exemplo, a última foto de João Gualberto, em sua passagem por Porto União da Vitória, dias antes de morrer no confronto em que tombou também o monge José Maria.
Como comentou Gustavo Jansson Habitzreuter, bisneto do fotógrafo, “a História do Paraná é uma história muito mal contada. Há muito para contar, para preservar”. Nesse aspecto, Olavo deixou muito mais do que um acervo de imagens.

Ponto final?

Já na supracitada Revista de História da BN, temos, na carta do editor, assinada por Lorenzo Aldé, que “não foi guerra, foi massacre. Um século depois, o Contestado ainda é um caso mal contado”. E o artigo de Paulo Pinheiro Machado “evidencia a complexa cadeia de interesses políticos e econômicos que motivou o ataque às humildes vilas místicas. Estas, a bem da verdade, não ameaçavam ninguém. Barbárie em nome do progresso, perpetrada pela jovem República em parceria com os coronéis locais”.
A revista dá crédito à foto usada na capa: Claro Jansson. Feita em Três Barras, em 1915, mostra que “homens armados, em postura soberba e intimidadora, insinuam estar prontos para o combate”. São vaqueanos do grupo de Pedro Leão de Carvalho, vulgo Pedro Ruivo. E a RHBN destaca a importância do trabalho realizado pelo fotógrafo sueco, justamente classificado no livro como precursor do fotojornalismo no Brasil.
O Contestado foi muito mais – muito mais – do que uma mera questão de demarcação de limites.

ENQUANTO ISSO…


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